segunda-feira, 24 de novembro de 2014

ENSAIO  de Pesquisa Vocacional Dança  2014.
Equipe Leste III .


O espaço “ENTRE”.

No início do ano todos nós da Equipe Leste III, Morgana de Souza, Wilhelm Araujo, Kleber de Paula, Penha Pietras, Carolina Gomes, do Vocacional Dança escrevemos no papel o sonho de cada um na realização do seu trabalho. Meu desejo como coordenadora de equipe para o ano de 2014 foi:

Estabelecer como  FOCO do trabalho da equipe uma relação que chamei de   “ENTRE”. Estabelecer conexões “entre todos os atores”, “entre todas as linguagens” e “entre os diferentes espaços culturais ocupados pelo Programa Vocacional”, provocando e facilitando trajetórias poéticas entre os equipamentos.

Nesse sentido, criamos p. ex. deslocamentos dos nossos encontros semanais de equipe, para que assim alimentassem o nosso estado de ATENÇÃO, pois essa atenção facilita encontrar novas soluções para os desafios do nosso trabalho com a linguagem da dança. Estar em desafio com o nosso corpo. Estar na zona do risco. Viver a aventura de não reconhecer o mesmo lugar. Pertencer a um novo lugar, no caso a região Leste III.

Foi assim que quando sentada no banco na praça em frente a Biblioteca Cora Coralina em Guaianazes com o meu colega Luiz coordenador de teatro, senti o prazer de estar em um lugar de repouso, pois já o conhecia, e de ação, pois nosso trabalho lá é o de provocar e facilitar trajetórias poéticas. O corpo acordado pronto para agir no movimento integrado. Esse paralelo de ser mestre ignorante me encanta no Programa Vocacional, pois a sensação é a de descobrir o diferente no mesmo.

Outro ponto que foi meu foco nesta coordenação foi a interação “entre” as linguagens presentes nos mesmos equipamentos onde acontecia o Vocacional Dança. Assim algumas parcerias “entre” os vocacionados dos AOs aconteceram, como o trabalho desenvolvido no CCFCT “entre” a AO de dança Morgana e a de artes visuais Ilma, “entre” a AO Carolina Gomes e o de música Alexandre e o de teatro Danilo  Caputo no CEU Jambeiro, e enfim “entre” o AO Willy e os artistas do Pombas Urbanas, na realização da ação cultural CONTAMINAJAM.

Tornar possível o contato dos AOs das outras linguagens do Programa Vocacional com os coordenadores de linguagem e dos equipamentos da região Leste III. O AO consciente do seu papel de agente cultural, cuidando da formação dos agentes culturais locais, os vocacionados,  possíveis multiplicadores deste exercício de provocar  trocas culturais e artísticas. Fomentar a emancipação, a cumplicidade, o respeito nas trocas  afetivas “entre” as diversidades artísticas, as  culturais, econômicas, raciais e de gêneros da comunidade que vive nessas regiões territoriais no extremo Leste do município de São Paulo.

Ouvir todas as vozes e ser conduzida por todas elas: da equipe dos coordenadores de linguagem nas reuniões semanais, dos artistas orientadores, dos artistas vocacionados de cada equipamentos, dos coordenadores de núcleos culturais dos CEUs e equipamentos culturais , das novas instancias de coordenação do Programa Vocacional, os coordenadores regionais, os de Formação, os coordenadores de projetos das linguagens, enfim estabelecer conexões potentes para provocar um trabalho em rede na região Leste III, que este ano compreende os CEU Jambeiro, o Lajeado, o Inácio Monteiro, o Agua Azul e o Centro de Formação Cultural Cidade Tiradentes.

Outro desafio como coordenadora foi o de facilitar a escuta. Compreendo que o papel do coordenador é um trabalho de escuta. O coordenador é um intermediário que complementa o trabalho dos Artistas Orientadores , facilitando que estes executem de forma artística a sua prática nos encontros com os vocacionados. Deve ser um fomentador, um provocador de ações artísticas pedagógicas e culturais que irão expor e expandir o processo de trabalho do dia a dia dos AOs com os grupos e turmas orientados.

A função do coordenador é a de apontar novas direções, valorizar as diferenças, propor avaliações de percurso e silêncios necessários para estimular a troca dos procedimentos entre os profissionais, fazendo com que o processo do trabalho estimule novos conceitos e práticas do fazer artístico. Me encanta poder acompanhar o processo artístico de cada artista orientador e seus vocacionados. Acompanhar o processo dos fios que vão tecendo essa teia, essa rede de trocas de subjetividade, entre todos que constituem esse coletivo tornando possível que outras formas de comunicação e expressão aconteçam.

Procurei ter um olhar transversal, que considera o vocacionado, o artista orientador, a gestão do equipamento e do Programa Vocacional, parceiros para que os conceitos estejam em constante transformação, unindo a prática e a teoria, compondo e expondo processos.

Percebi também neste lugar de coordenadora em 2014, que o trabalho também  cria novas relações entre as políticas públicas culturais. Novamente o espaço ENTRE assim se estabelece. Ele se estabelece “entre” as plataformas de uma gestão, em determinado contexto sócio-econômico durante certo período social, onde fatos políticos como a campanha para a presidência, a Copa do Mundo, a construção do Itaquerão - um gigante “entre” o trajeto de deslocamento de toda a equipe nos trilhos e nas ruas de  Itaquera.

As transformações  que os trajetos  sofreram neste percurso foram  enormes. As mudanças  da geografia do espaço territorial foram impactantes. Descobri a Jacu-pêssego, me familiarizei com a av. Dos Metalúrgicos, pela primeira vez  percorremos a Instituição Cultural Pombas Urbanas, a referencia cultural desta região.  Juntos organizamos a ação cultural CONTAMINAJAM  na Cidade Tiradentes. O  conceito foi compartilhar os fazeres artísticos entre o público das oficinas oferecidas neste espaço e os vocacionados de dança.

Esses são os motivos para firmarmos parcerias, e continuar o trabalho de estabelecer redes entre esses espaços culturais, pois quem sabe de uma forma mais compartilhada, podemos aprofundar e estabelecer formas e estratégias mais eficazes para uma maior emancipação das subjetividades na forma de ensaios poéticos e exercício de uma cidadania Cultural independentemente do momento político que vivemos.

Ensaios Poéticos, de poeiese, ou poiésis, refere-se ao exercício de criação, sobretudo artística. Deriva do grego pioén que a grosso modo significa FAZER.

Os vocacionados podem ser os agentes multiplicadores em sua região para ampliarmos as fronteiras do possível, e segundo a voz de um desses vocacionados em uma reunião (10/11/14) “entre” os AOs , coordenadores e vocacionados do CFCCT, disse ter vontade de trocar, conhecer e estabelecer novos contatos e afetividades “entre” a comunidade do entorno, indicando a necessidade de facilitar o acesso da comunidade a esses espaços. Está aí uma questão urgente para 2015: como a demanda pode aumentar nestes espaços?  como contribuir para a formação de público tão necessária e parte constituinte do processo do fazer artístico? como  provocar mais trocas poéticas entre os cidadãos?

Mais importante que chegar em algo ou em algum lugar é o que acontece no caminho ENTRE.



Nininha Araujo .
Ana Cristina Curvêllo de Araujo Petersen
Coordenadora de equipe Vocacional Dança leste 3 ,2014.







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domingo, 23 de novembro de 2014

Abrangendo, aprendendo e simplificando a Generosidade coloquial e sincera

 
Apesar do primeiro fio condutor para o desenvolvimento do ensaio de nossa equipe ter partido de nossas trajetórias, tomamos como rizomático este processo de reflexão e assim pudemos escoar, transbordar, alar e alçar voos a partir das experiências cotidianas na relação entre o Vocacional e nós, cujo elo é nossa arte compartilhada.
Gostaria, sendo assim, de discorrer sobre a primeira palavra espontânea que surgiu repentinamente imbuída de gratidão, surpresa e beleza: Generosidade.
Já havia estudado sobre generosidade em cena, sobre o artista generoso que compartilha suas experiências e conhecimentos. Inclusive que a generosidade seria um dos fatores fundamentais da cena, já que a princípio não estamos sozinhos, e sim com o público. E que quanto mais conhecimento propagamos, mais ainda aprendemos. Mas esta generosidade me pareceu ainda mais palpável, profunda, ainda mais natural e intrínseca à solidariedade, capacidade de ceder, doar, entender o outro.
Sabemos que o Vocacional possui característica própria de intenso trânsito, e na dança costumamos fazer com que cada encontro possua em si um processo findo, que possa ou não ser continuado. Mas a ideia é fazer com que em um encontro alguma experiência possa ser tangida, mesmo que resvalada, e que seja em si mesma um processo sobre o qual se possa extrair reflexões, sensações, percepções.
Alguns não compreendem ou não querem esta oscilação e se vão. Às vezes voltam. Os interesses são muito particulares, uns permanecem do início ao fim do Programa. Uns até a metade, outros, da metade. E uns já foram Vocacionados, outros nem fazem ideia do que seja. Mas vivendo e observando os Vocacionais, foi possível perceber que há um acolhimento quase orgânico que só se percebe com afinco, de natural que parece, uma compreensão que às vezes em nossos coletivos artísticos não teríamos, por razões profissionais ou egóicas, por necessidades diferentes ou por condições de trabalho.
Apesar de diferentes níveis de experiências, naquele espaço de fruição, aquele que atravessou seus entraves, torce e faz de tudo para que o colega vivencie seus prazeres e descobertas. Há um olhar sem julgamento entre si, um olhar realmente generoso. Um modo de enxergar o que há de melhor em todas as dificuldades do outro. E propor, auxiliar, compor, discutir e aceitar.
Não sei se isso se deve analogamente à realidade em geral que lhes cerceia, o sorrido da avó, senhora na cadeira da periferia, curtindo o céu azul diante das adversidades e injustiças alheias. A piada no ônibus lotado, onde ora se empurra, briga, ora se diz: “Vem que cabe mais um”. Ou se vem da compaixão pelas dores, pela opressão e descaso triviais, por tantas violências explícitas e veladas, pela falta de recursos, que faz com que dividir o pão se torne normal para eles, quase extraordinário quando aquém desta realidade. Querer que o outro se sinta bem, que seja num processo artístico dentro do programa Vocacional, parece e é simbólico e parece que isso também influencia na permanência de alguns Artistas Vocacionados, do Programa e de nós, orientadores, que muitas vezes nos sentimos desorientados emaranhados nesta teia de dificuldades e poesias, de conflitos e flores, cruzamento entre horizontalidade e verticalidade, dimensões e planos diversos.
E sinceramente, apesar de termos um eixo norteador sólido que serve para nos auxiliar, estamos lidando com arte e arte é humanidade e humanidade não tem fórmula precisa, a cada experiência a perspectiva sobre o mesmo pondo muda, nós mudamos, o ponto muda. Portanto sempre nos vemos diante de algo novo, um campo tão conhecido quanto desconhecido, um mar de afinidades e dissonâncias, acho que só não de pleno conforto. Não sei nem se para o artista há o pleno conforto, e nem deve haver, já que somos um mar de inquietação a começar por escolher viver de arte.
Hoje, ser Artista Orientadora, ou Vocacionada, ou Aprendiz para a vida toda e estar ao lado de pessoas tão complexas, magníficas, diante de medos e coragens que eu desconhecia, de auto descobertas, me faz compreender ainda mais que quanto mais caminhamos para onde achamos que é o lugar da sabedoria, do conhecimento, mais continuamos a ser aprendizes. E a generosidade é muito mais do que doar-se, permitir-se. Parece que é abster-se de egos, de individualidades, como olhar para o espelho e enxergar o outro, os outros, olhar fora de si e ainda estar ali, junto, dentro.
 
PROCESSO FINAL CEU GUARAPIRANGA

Iniciamos com uma turma e terminamos com outra totalmente diferente. Chegamos a ter mais de 20 vocacionados por um tempo, em outros, apenas dois. A princípio tínhamos vivenciado diversos processos, trabalhando com consciência corporal, desenvolvimento da percepção, escuta, soltura das articulações, utilização de apoios e alavancas, sequências de dança moderna, experimentações nos espaços externos do CEU com Le parkour e dança, capoeira e dança e acrobacia de solo e dança. Chegamos a fazer uma ação cultural com trampolim (cama elástica) e fotografia, que culminou numa intervenção registrada na rua. Tudo com oscilação da turma, variando as pessoas que vivenciaram as coisas.
Com esta turma que estamos concluindo, iniciamos nos últimos dois meses uma pesquisa sobre relações de poder e gênero. Durante a pesquisa encontramos possibilidades de trabalhar a partir dos diferentes poderes femininos, da feminilidade singela, da mulher travesti, dos homens, do despir-se, da solidão e do bulliyng. Desenvolvemos alguns processos de criação individuais e coletivos, a partir de jogos e de improvisação, com orientações sobre o material, sempre discutindo, evitando dirigir.
Houve uma importante influência na organização do material após ação cultural de mostra de processos da equipe, o que demonstra a importância das ações e sobretudo do compartilhamento de processos, que enriquece os sentidos, a criação e fortalece cada equipamento.
                                                                                                Mainá Yamachi
 
Vídeos, imagens, ações e processos em: http://vocacionaldancasul2b.blogspot.com.br/
 
 

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ESTRUTURAS EM TRÂNSITO



                
Apesar de ser um eterno processo, o fechamento desta etapa pôde demonstrar o reflexo da importância da chegância  que pude trabalhar  partir de um procedimento artístico. Às vezes queremos contemplar inúmeros elementos técnicos e oferecer toda nossa bagagem artística, contudo parece funcionar bem se escolhemos uma das tantas questões do próprio programa, que tanto discutimos, como ponto de partida ou foco no decorrer dos processos com os vocacionados. Sanando algumas questões, abrimos caminhos para que outras possam surgir ou ressurgir e assim continuarmos este trabalho de criar, agregar, formar/desenvolver público, propor, compartilhar, abrir janelas, transformações reticulares.

Uma coisa bastante interessante, no decorrer das criações, foi embeber-me das propostas dos meus colegas partindo dos compartilhamentos nas reuniões, o que resultou na transformação do meu próprio processo com os vocacionados, ressignificando inclusive as estruturas e a relação criativa com elas. Transitar pelo universo da minha equipe, leste 1, fortaleceu a ideia de trânsito das estruturas. Isso demonstra que trocar conhecimento e aprendizagem é fundamental e poderia ser uma ideia nutrida em forma de ações dentro do programa.

Este procedimento, em sua concepção, fez com que os vocacionados se permitissem mais, recepcionassem os que foram chegando, imergissem e se apropriassem da pesquisa das estruturas e do corpo. Pudemos trabalhar a escuta e percepção a partir de jogos de improvisações, conseguimos inserir alguns elementos coreográficos, propostas cênicas, tendo como eixo o procedimento, irradiando para a técnica e para fruições criativas. O procedimento que começa na relação com o outro, enrolando jornais, faz com que a dança já aconteça implícita na ação proposta, nas conversas, no tipo de toque para construir as estruturas e quase que de maneira orgânica, estão abertos ao toque do outro, a todo tipo de proposta subsequente, aos jogos, às danças. Vêem na construção da estrutura, um pouco de si mesmos, dançam sua obra, vêem poeticamente o outro e dançam com o outro quando dançam suas estruturas.
Surgiu, por conseguinte, um interesse de se consolidar e continuar os ensaios como um coletivo, já com o propósito de batalhar pelo espaço ou, se necessário for, deslocar-se para outro local que os receba, o que é uma perda para o próprio equipamento onde surgiu e tanto labutou o grupo para fruir seus anseios artísticos.
Refletiu na estrutura corporal, a falta de estruturação do equipamento, que fez com que buscássemos outros recursos, pesquisas e provocações. Muitas vezes temos o programa dentro de um grande espaço físico sem espaço real, quase cômico, quando não trágico a ponto de ruir um trabalho e afastar o público característico do Vocacional. Falta estrutura física, política, cultural, educacional, sensível, acolhedora, parceira, plural, ativa. Falta muita estrutura que faria a diferença na estruturação do próprio corpo, do indivíduo, do programa, do grupo. Muitas vezes estamos driblando situações muito adversas que acabam virando um tipo de estímulo, uma realidade parca de estrutura falha, uma poesia esfarelada que tentamos aglutinar na nossa relação vocacional x vocacionados x equipamento.
  
A cada ano tem sido um aprendizado sólido e promissor, mesmo que percorramos várias questões do programa que não são isoladas, acabamos tratando mais fortemente algumas que nos tocam ou se destacam nos nossos processos. Transitar e compartilhar são as palavras chave deste ano, que representam de modo geral tudo o que vivenciamos cotidianamente na equipe Leste 1 e no CEU Tiquatira.
Telmo Rocha (TJ)




















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sábado, 22 de novembro de 2014

COLETIVO EM TRÂNSITO OCUPAÇÃO CENTRO CULTURAL DA PENHA

DANÇA VOCACIONAL
COLETIVO EM TRÂNSITO OCUPAÇÃO CENTRO CULTURAL DA PENHA

Artista Orientador - Frank Tavantti
Equipe Leste 1 - Coordenação Claudia Palma 

         Atualmente o corpo tem sido foco de uma era em que um simples toque pode abrir janelas que nos carregam para o desconhecido, um emaranhado organizado de frestas pelas quais podemos ver mundos totalmente diferentes e que nos possibilitam navegar no passado, em um presente compartilhado ou até mesmo em um futuro que anseia, tudo isso com o mínimo de esforço. 
          Podemos nos transportar em uma fração de segundo sem sair do lugar, um simples toque e temos o mundo na ponta dos dedos. Somos impulsionados então a abrir essas janelas, deslizar, tocar e compartilhar o nosso próprio universo.  Há nisso tudo um movimento pouco percebido que nos acompanha desde que nos entendemos forma e somos estimulados a nos mantermos, sustentarmos em uma estrutura. O desejo, a necessidade, o precisar é o impulso interno que nos move, aquilo que nos faz buscar.


         Neste ano de 2014 atuando como Artista Orientador no Centro Cultural da Penha pude continuar o trabalho de formação de turmas e o mapeamento de um local onde a dança pulsa forte. Percebi o desejo das turmas em sair do espaço, estrutura CCP e buscar outros lugares para ocupação e dança. 



         Percorremos o entorno do Centro cultural com cortejos de ocupação, Shopping Penha, praças e uma parceria com SESC Belenzinho onde participamos de encontros do projeto “100 lugares para dançar”. Alem de visitarmos algumas exposições e ali mesmo criar um espaço para dançar.


          Esses cortejos ocupação detonaram nos processos artísticos, nos encontros possibilidades de movimento e memória do corpo a partir do que ficou de cada espaço ocupado. Revisitando o percurso, pelo segundo ano, percebo  que o Centro Cultural é ocupado por artistas do entorno e em sua maioria por artistas de outras regiões que buscam ali um local de não só o fazer mas sim o pensar dança e que um pólo de processos criativos em dança se instala fortemente. 



              Acredito, a princípio, que não há como pensar em processos de criação junto com os artistas vocacionados sem que se atente pelo desejo, aquilo que nos faz mover e então buscar algo que seja interessante e que de alguma forma nos faça sentido, satisfaça. Não há dança sem sensação, sem sentir, sem um estímulo, sem movimento. “O Homem se movimenta afim de satisfazer uma necessidade. Com sua movimentação, tem por objetivo atingir algo que lhe é valioso” (LABAN, RUDOLF, Domínio do Movimento p.19).
           Nesta definição de Laban, sobre o movimento, sempre me instigou a palavra “valioso”. Entendo valioso como algo importante, de valor, algo muito merecido, mas que também contém validade, um tempo de duração, um fim.  O indivíduo então tem como objetivo o desejo, que pelo movimento, seja possível atingir esse “valioso”. Assim, o movimento torna-se um trajeto, uma ponte para conquista do mesmo.


        Esse entremeio, esse lugar de experimento é o local, como o próprio Laban intitula de uma cultura humanitária, na qual se compartilham desejos de se chegar a um “valioso” comum. Inge Baxmann afirma que “A dança desenvolveu-se numa arqueologia das maneiras de vida. Gesto, movimento e espaço são elementos de uma estética de atravessar fronteiras, que busca desenvolver uma nova maneira de perceber, em oposição a mundos prontos de imagens que adulteram nossas formas de ver”. (BAXMANN, INGE, Dance Theater: Rebellion of the body p.60). Percebo que há mais coisas na dança do que somente a interpretação de certa corêutica, termo utilizado por Laban para descrever harmonia espacial, impulsos expressivos e atitude. Há muito mais dança dentro de cada um do que de fato imaginamos, mesmo que eu nunca tenha sequer dançado, o que considero quase impossível.



O que os faz buscar...?

       Não somente pelo espaço CCP que é um local de trânsito e circulação artística e/ou  pelo encontro que o Vocacional promove mas também percebo que alguns artistas vocacionados buscam acompanhar artistas orientadores, o que descentraliza e os faz percorrer outras regiões, estar em trânsito. Tenho alguns artistas vocacionados que me acompanham desde quando iniciei no programa 5 anos atrás. Este ano em especial, tivemos um artista vocacionado cadeirante que se deslocava de Guarulhos todas as sextas a noite para os encontros na Penha, outros que vem da Zona Sul e alguns do extremo Leste.  

Camadas, poesia, memória... Detonadores do processo.


          Imagem, espaço, objeto, contorno, forma. Pensar então nesse princípio básico que é ocupar e em como o meu corpo pode perfurar lugares tem sido um disparador para minha pesquisa em dança e nos processos criativos que tenho desenvolvido nestes anos de prática. O processo de criação é hoje, algo que não se restringe somente a coletivos profissionais de dança e ou de teatro, chegando a uma boa parte de pessoas interessadas em pensar a dança e não apenas se movimentar. Abrir um leque de possibilidades, de ocupar um espaço com seu próprio corpo, é partir para a busca de resgate de memórias, possibilitar agentes criativos a uma matéria cuja essência é geradora de movimento. 
      Como seres vivos temos por necessidade movimentar, gerar espaço, movimento, impulsos internos que consciente ou inconscientemente criam caminhos e percursos no nosso fazer vital. “As reflexões de um tal ser se efetuam e se exprimem dinamicamente. O pensamento é, para ele, um movimento interior, intercorporal; o espírito é, para ele, uma essência movimentada, talvez o próprio movimento”. (LABAN, apud MIRANDA, REGINA Corpo Espaço p.17)  Essa ideia de que o corpo possui uma forma e com essa forma pode ocupar um lugar ou até mesmo se ocupar pode despertar a consciência de ocupação e em consequência o espaço criativo. Um olhar para dentro fazendo reverberar no que está fora, lançar ou impulsionar movimento.

“Madeleines”

             O processo deste ano chega a um local muito particular de movimento e memórias, aquilo que ficou, as camadas que cada artista viveu e percorreu dentro de cada encontro e de cada experiência que nos transpassou. As duas turmas com trabalhos específicos, resultados bem característicos e individuais retratando as suas “Madeleines”, escolhem levar para a cena aquilo que os percorreu durante o processo. Criação individual e compartilhada.
             Possibilitar um espaço para criação coletiva ou individual é antes de tudo poder dar voz e refletir sobre sua própria trajetória, suas experiências e sua cultura de movimento que ao longo da vida colecionou. Partindo dos registros do arquiteto, filósofo e coreógrafo Rudolf von Laban sobre o estudo do movimento, revisitamos uma parcela dos estudos dos quais ele formulou um sistema de observação, experimentação e análise de movimento complexo e poético. Poder chegar mais próximo dos conteúdos fomentando outras formas de gerar dança/movimento é conceder ferramentas para a busca desse valioso, de uma dança pura e criativa.  O que é dança? Onde ela começa? É possível dançar sem uma “experiência” prévia? Onde moram os desejos?


          Pensar essas possibilidades de criação coletiva ou individual da dança é estimular outros caminhos de uma obra sem que para isso seja necessário passar somente pelos mesmos padrões ou estilos formais de escolas e academias de estudo técnico da dança, mas também gerar e fornecer opções, atividades que provoquem criações a partir do movimento interior, próprio, individual, autoral.  De uma forma mais simples, a intenção é promover uma vivência, a experiência de uma linguagem próxima ao universo dos encontros, aulas e as peculiaridades de cada turma, podendo perceber e dar voz a esse coletivo. É compartilhar um trabalho artístico sem que pra isso seja preciso impor padrões e técnicas tradicionais que os façam perder sua essência e sua individualidade.
         Desde 2013 e ainda mais fortalecido este ano, o “Coletivo Dança CCP” aponta para formação de um grupo que pretende se fixar no local e continuar esse percurso durante 2015  com o desejo de ser orientado pelo programa.
Ainda há muito o que se conquistar em 2015 no Centro Cultural da Penha. As bases da dança estão sendo fortalecidas e terminamos o ano com mostras que refletem o prazer e o desejo de cada artista vocacionado em continuar, amplicar os caminhos nesse espaço tão parceiro que nos da base para criação e compartilhamento. A dança se faz criativa e transita a todo momento de um para o outro, ocupando-se de cada um independente de onde ela atravesse.

         Concluo que a dança criativa pode tornar-se um facilitador e um colaborador em matéria de pensar o corpo em suas funções básicas, não somente reproduzir ou gerar movimento, mas antes de tudo, sentir e poder criar algo que seja genuíno. Se pensarmos que a dança também pode ser gesto, esses movimentos corporais utilizados na vida diária, no processo criativo ele ganhará uma função estética, podendo ser estruturados, estilizados e até mesmo coreografados. A dança então se torna uma linguagem simbólica podendo ser associada ao desenvolvimento humano físico e psíquico. Como afirma Jacques Lacan, "é também através da linguagem simbólica que o ego não apenas interage com o mundo, mas é em si mesmo construído física e psiquicamente, em sua imagem corporal" (LACAN apud FERNANDES, CIANE Pina Bausch Wuppertal Dança-Teatro, p.29). Aproximar o movimento do universo cotidiano de cada indivíduo é trazê-lo para o mais simples, chegando mais facilmente ao seu contexto histórico e de sua realidade. A dança, assim, pode chegar mais facilmente a essa cultura humanitária de movimento, não privando qualquer interessado em praticá-la.





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quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Que Pulso Que Pulso...

                           


                                                       por Enoque Santos

                                        Artista Orientador do Ceu Quinta do Sol

                                      Equipe Leste 1- Coordenação Claudia Palma







Que pulso que pulso...

É mais um Vocacional acho sempre que e mais um. Não é sempre vida nova, momento novo. Pessoas novas enfim vivendo e aprendendo cada vez mais, isso que me move me fortalece e fazer parte desse programa deste grupo qual pertence. E saber que tenho um grupo que participa dos momentos alegres e difícil que passamos. Vamos falar de coisas boas ou isto também não e bom. Ai vem P padaria, pão na chapa, periferia, processo, procedimento, pesquisa, provacional quem diria e muito outro significado que possamos dar. Ai muda o sentido de uma reunião e da vida para uma ação fico pensando como aplicar este P nos meus encontros ai percebo que posso pulsar é o ato de mover o corpo em cadência.  Sinto que os vocacionados parecem sentir a necessidade natural de expressar seus sentimentos através do movimento rítmico. A dança é tanto uma arte como uma forma de diversão. Como arte, ela pode contar história, determinar uma disposição de espírito ou expressar uma emoção. Geralmente, esses movimentos com cadência são realizados ao ritmo de uma música.

Que impulso irresistível leva os vocacionado a dançar? Por que ainda no estado natural mais primitivo, em lugar de economizar suas energias para encontrá-las mais intactas no momento da ação, necessárias a seu sustento ou sua defesa, desperdiça-las em movimentos fisicamente esgotantes?
Para outros, a dança constitui um meio de comunicação dos mais pessoais e eficientes. Seus movimentos, que progressivamente vão-se ordenando em tempo e espaço, são válvula de liberação de uma tumultuosa vida interior que ainda escapa a analise. Uma pessoa dançando pode expressar muitos sentimentos: desejos, alegrias, pesares, gratidão, respeito, temor, poder.




OS RITMOS E SUAS ORIGENS

1. Batuque: Dança de origem africana, caracterizada por requebros, palmas e sapateados, acompanhados ou não de canto. Por extensão, nome de certos ritmos marcados por forte percussão.

Lundum: Conhecido também como Lundu, Landu ou Londu. Dança e canto de origem africana, baseados em sapateados, movimentos acentuados de quadris e umbigadas. Trazidos para o Brasil (Pará) por escravos Bantos no século XVIII. Nessa mesma época os escravos praticam-no no Rio de Janeiro, onde constituiu uma das origens do Samba e da Chula. Cantores mais famosos:


 ”Só a imaginação pode ir mais longe ao mundo do conhecimento. Os poetas e os artistas intuem a verdade. Não pinto o que vejo, mas o que sinto.”
Iberê Camargo

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