quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

DANÇA | CEU Caminho do Mar | Cristina Ávila


sobre partir do epílogo, PORQUE ASSIM COMEÇO TENTANDO COMPREENDER PARTES E TERMINO COM CRIAÇÃO


As materialidades foram múltiplas. A relação entre processo e resultado, discutida largamente no programa Vocacional, parece se esclarecer pra mim num lugar que não é de meio termo, mas de projeção daquilo que ainda está no campo do desejo: sim, que o processo seja vital e sim, que o resultado não seja mais do que o fruto desse processo. Mas que haja espaço para que este resultado seja depurado largamente, para que a maturação dos processos nos corpos e nos entendimentos possa ser mais profunda. Talvez seja inerente à criação estar sempre incompleta. Mas a sensação recorrente de terminar quando ia começar permanece em mim como estado suspenso de criação.

.......

Com relação às escolhas estéticas, como visualizar o que está pré-definido (por nós) sem que saibamos? O que é vício de criação meu, deles, de nós como conjunto? O que é repetição do Programa Vocacional como conceito e forma? O que é revisitação? Como escapar de uma pseudo-necessidade de reinvenção absoluta e, ao invés disso, ampliar as conexões entre os infinitos fios da arte e sua conexão com aquilo que na vida grita em nós? O que nos interessa e desloca?

.......

Neste ano a equipe se encontrou de modo irregular porque mais uma vez parte das segundas-feiras foram convertidas em assembleia. O constante paradoxo (talvez não tão paradoxal assim) entre focar no trabalho direto com os vocacionados ou focar nas necessidades de mobilização para que justamente este trabalho não mergulhe no poço sem fundo da falta de estrutura, falta de respeito, falta de condições, falta de entendimento, falta de valorização - até chegar na inevitável falta de existência. A segunda opção me parece a única possível e, assumidas as perdas, assumimos portanto que perde-se boa parte da possibilidade de real articulação da equipe. O quanto isso seria de fato transformador para os processos com as turmas é algo que só saberíamos se tivesse acontecido, mas intuo que poderíamos beber mais dessas inquietações cruzadas.


sobre expectativas e des-re-construções, porque DOS CORPOS IMPREVISTOS
- aos sábados -











Pra começar, foi desapego do processo marcado do ano passado. Coisa que não precisaria (?) fazer parte deste relato. Mas é como dizer algo sobre expectativas em torno dos corpos pulsantes, femininos e explosivos do tempo anterior, e que ainda eram marcas nos desejos de agora, mas permaneceram em algum lugar mais intuitivo do que presente.

Então o estado recorrente da "dinâmica vocacional" (volátil? móvel? inconstante? transitória? flexível?) me entrega para um espaço com outros e novos encontros. Recomeçar um processo em dança que não se pretende tecnicista, porém técnico, que pretende ter o corpo como protagonista, porém por meio de um protagonismo compartilhado com aquilo que o preenche - e seguir o fluxo contínuo do corpo que pede a preparação, que por sua vez (in)determina o corpo, que então reconstitui a preparação-estudo-entendimento.  Alguma coisa há de mudança em mim-artista e, caminho inevitável, a mesma transição há nesse espaço que é de outra pesquisa, mas não tão outra assim.

Por dentro do entendimento de que estava em um outro começo, partir para a dinâmica de procura dos possíveis movimentos para o movimento. Em princípio, algumas escavações tão fragmentadas, como incoerentes, como cruzadas (ainda que posteriormente): → O outro lado de Saramago. → Um Abujamra deslocador dando voz a Mude, de Edson Marques. → Corpos voltados para lentes de celular que captavam recortes. → A alteridade como possibilidade de existência e ação.

Parênteses 01. Mini relato. Em experimento do início do ano, uma das vocacionadas desenvolveu um trajeto pelo espaço, levou o corpo para o chão, deitou-se com uma leve suspensão de uma das pernas e pausou. Por mais de 40 minutos permaneceu assim, em movimento latente. A turma em volta. Em silêncio, inquieta, depois quieta, depois com interferência, depois dispersa, depois atenta. Essa presença constituiu ali um momento ímpar de integridade. Fecha parênteses 01.

A cada semana diferentes perspectivas. Outros corpos. O tempo da escavação é quase mais longo do que o tempo que resta quando alguma pedra é.

Pedra. Uma que quase por acaso saiu de uma das mochilas vocacionadas e veio para a cena com aspecto de intromissão. A pedra tão solta quanto colada ao corpo disparou, na sua aparente imobilidade, os primeiros espaços de conexão entre tantas informações até então multiplicadas. Pedra sobre o abdômen. Ar sob a pedra. O corpo expande e recolhe o minério nada imóvel. Na sutileza dos últimos instantes de uma cena que não mais retornou, estava o ponto encontrado de continuidade.

A partir de então tínhamos, parece, encontrado uma tríade que nos acompanharia ao longo de todo o tempo que restava desse percurso: O corpo, a cena e a pedra. Todos, de um modo ou de outro, como metáfora. Movimento e pausa, cheio e vazio, som e silêncio, aparência e tudo o que está por trás, por dentro e ao redor dela. As aparentes oposições trazidas à tona a partir da mobilidade habitada na pausa.




Parênteses 02. Assumi este ano uma escolha/desejo/identificação com uma outra forma de expressão artística: ainda que diretamente conectada aos corpos - e portanto à dança - sugeri que nos aventurássemos (de modo mais intuitivo do que com domínio técnico) por uma conexão com as artes visuais. Sugestão aceita, e que encontrava eco em práticas paralelas que alguns vocacionados já desenvolvem. Já no início do processo tínhamos experimentado olhar para os corpos por meio de recortes de fotografias de celular. De alguma maneira esse material ficou suspenso no tempo e a experiência retornou com olhar focado para o cheio e vazio de nossas pedras em movimento. Foram compostos materiais em vídeo e foto (tanto em práticas conjuntas como em pesquisas individuais pelas ruas, casas e ambientes diversos de cada vocacionado). Como dar vazão a este material e fazê-lo penetrar nas danças? A pausa de 40 minutos de uma das vocacionadas meses antes, relatada entre parênteses acima, parecia nos responder: uma exposição/instalação de corpos e imagens configurada como prólogo no saguão, além da edição de um videodança que interferisse na cena do palco trazendo para a dança as pedras dos outros espaços habitados. Parte dos vídeos e fotos transformados em mídias projetadas em celulares e tablets. Fotos impressas interferidas por colagens, cores, reconfigurações. O corpo compondo em pausa. 
Fecha parênteses 02.

Escolhido esse eixo (mais por interesse do que por formalidade - ou acreditei que foi assim), partimos para a observação, o experimento e a construção daquilo que nos preenche e nos esvazia (que às vezes são respostas diferentes; outras, é uma resposta só, mas vista por um ou outro ângulo). Nessa escavação buscamos investigar individualmente, afetar-se uns pelos outros, achar espaços internos  e responder com o corpo. Buscamos um pouco de sol forte e poeira, para que a aridez fosse também constituinte de um processo de mobilidade a partir daquilo que seca. Há na turma quem pinte, fotografe ou escreva. Houve textos transformados em áudio que viraram base para a trilha sonora. Talvez, de alguma forma que não tínhamos tanta clareza, estávamos buscando que as danças se expandissem.


Chegamos em (C)Aos seres que vibram, depois daquele corpo-instalação em junho  que respirou por 40 minutos e que me fez pensar, olhando pra ela, que "não há pausa, há resistência". Quem dançou aos sábados pulsou um trabalho tão seco quanto suado, vibrante nas raízes, ainda que com tudo para aprimorar.


https://youtu.be/pb86xmqbkJM  (videodança (se é que se pode chamar assim) exibido dentro do trabalho)

https://youtu.be/YQeCV5ycrL0 (video-citação (se é que também se pode chamar assim) exibido após o agradecimento. Não se trata exatamente de parte integrante da dramaturgia, mas de citação que nos interessou dado o atravessamento da lama criminosa em Minas Gerais)

→ nenhum dos vídeos apresenta créditos porque estavam inseridos no fluxo do trabalho cênico.












das afinações de ideias e muitas gentes, porque DAS METAFÍSICAS NEM SEMPRE MUITO CONSCIENTES, MAS ÍNTEGRAS
- às segundas-feiras -

No retorno do trabalho que desde 2010 busca estudar o encontro entre dança e teatro no CEU Caminho do Mar, minha parceira de orientação e eu conversamos sobre o desafio de não repetir os modos de trabalho do ano passado, mas sim, investigar novas fusões possíveis.

A turma sempre tão grande. Por onde começar com energias tão diversas sem massificar o trabalho? Como dar vazão às compreensões individuais, ainda que no trabalho coletivo, retornando sempre à questão sobre o que é o grupo e quais são os seres que o compõem?

As ações e a ideia de presença  nortearam os primeiros encontros. As longas (e por vezes acaloradas) discussões sobre questões fundamentais do mundo lá-fora-cá-dentro estiveram presentes com regularidade e importância fundamental no desenvolvimentos dos processos. Da maioridade penal aos abusos de poder, da coerção por parte da polícia aos preconceitos todos, do machismo aos espantos porque é possível que seja de outro modo, das alienações às posturas firmes e intensas. Os embates de ideias foram muitos e, direta ou indiretamente, conduziram os corpos para experimentos que faziam emergir questões que talvez nem fossem percebidas num primeiro momento. O jogo ganhou contornos fragmentados. Estavam corpos, ações e discursos em jogos contínuos de composição e recomposição que revelavam o que estava por vir.



Algo sobre ser. Sobre o que nos constitui como humanos entre fragilidades e contradições. Algo sobre o ser e sobre a arte, tão sujeita às variações de leitura, aos riscos das obviedades, às possibilidades de explosão de sentidos.

Onde está o encontro da dança com o teatro? Este ano, me parece que, numa preocupação mais dissolvida com essa questão (embora não como uma escolha prévia), mergulhamos numa composição de cenas onde aquilo que era necessário estar, estava. Mais do que o estudo de um material cabível na definição ampla de dança-teatro, estivemos buscando impulsos para olhar para o formato depois. Isso não é necessariamente uma apologia a esta quase-opção, nem um problema; é uma questão.


Veio de uma experiência (desdobrada em meia dúzia de versões) uma cena composta em pausa em torno de um olhar que conversa com a plateia apenas por estar. Semanas de reexperimentos, até que veio de um vocacionado a Tabacaria de Fernando-Pessoa-Álvaro-de-Campos. Na voz de Abujamra. Por dentro dessa cena. Por quase 10 minutos. A voz em off, e estas palavras, e o palco desenhado pelos corpos que paravam. E olhavam. Também só saberíamos no final de tudo (que ainda não chegou), mas talvez tenha estado aí a raiz que amarrou o que vinha antes e depois, ainda que tenham sido células surgidas por caminhos diferentes.


Dramaturgicamente, os fragmentos continuavam presentes. No aprofundamento, as provocações para que o trabalho extra-CEU existisse. O que se estuda, o que se assiste? Quem leu o poema denso e longo? Quem pensou sobre ele? Quem se reconhece em alguma dessas fagulhas? Qual o tempo de depuração para que algumas coisas assentem e signifiquem? Quando e como fará sentido? A presença dos corpos me dá pistas destas respostas. 


São Paulo, Jabaquara, CEU Caminho do Mar | dezembro de 2015


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  Reflexos e reflexão -  AO Rosana Massuela

Grande Viagem


Reflexo de Vozes
Sinaida Serro

Som nos ouvidos; zumbido
Coro de vozes;  contido
União de mundos;  opostos
Respeito ao gosto; não gosto

Quem saberia ocultar...
Talentos, ritmos soltos no ar
Reflexos ao mar

Canta à força e união
Ontem não tinha noção
Um simples desconhecido,
Agora chamado amigo

A intenção virou melodia
O ensaio composição,
E a realidade música
Agora é canção

Quem saberia ocultar
Talentos,ritmos soltos no ar
Reflexo ao mar

Entre o Porto seguro e o Além mar
Meu disparo em escrever esta pesquisa-ação não foi meu, fui atingida pelo poema da vocacionada  Sinaida Serro. ( acima)
Iria iniciar meu ensaio , a partir da minha provocação em aula, porém fui fortemente atingida ,quando distraída  , pela resposta a minha primeira provocação. 
Vou elucidar este fogo cruzado de diferentes  concepções de mundo.
A partir de uma conversa em aula,  propus  aos vocacionados que trouxessem letras, musicas e ou composições próprias para ensaiarmos.
Sinaida tomou a  iniciativa de escrever sobre as aulas que havia participado. Disse que era tranquilo escrever mas tinha dificuldades em criar melodias.
 No encontro posterior ,apos ler  o poema, um silencio concreto surgiu e   tomou conta  de todos. Aos poucos, e muito suavemente , os vocacionados emocionados  elogiaram  e o elegeram como gatilho para o nosso  processo de criação coletiva. Vamos navegar por outras fontes.

Reflexão ( breve) sobre os “ reflexos” 
Reflexo - 0 refletido; verbo cujo complemento é o pronome da mesma pessoa do sujeito; o mesmo que reflexivo; indireto; efeito produzido pela luz numa superfície espelhada; duplicação; resposta motora inconsciente subsequente a um estímulo; influência http://pt.wiktionary.org/wiki/reflexo
Reflexão - ato de perceber, reconsiderar, reformular, imaginar ou repensar uma ideia ou ponto de vista; o ato de refletir (a luz ou imagem) http://pt.wiktionary.org/wiki/reflexão
Reflexos no caminho
Quando buscamos realizar o processo de criação de improvisação tambem experimentamos os varios tipos de reflexos como: imagem distorcidas, imagens refletidas , espelho , espelho meu, quem sou eu.
Sinaida Serro, com o poema intitulado, Reflexo de vozes, trouxe a memória algumas possibilidades que os encontros propiciaram para fazer musica. Ao registrar em um jogo de palavras,e expor, entrar na provocação , se desenhou o  caminho que pode ser   realizado a cada encontro  e refleti para todos os envolvidos. Também me coloco nesse fogo cruzado.
 Devo salientar que esse processo é daquele conhecido pelo Artista  Orientador  ,de trabalhar com  os  presentes  e com a presença da ausência dos outros, sem saber muitas vezes quando atingimos, onde atingiremos e como seremos atingidos.
                        A cada encontro buscamos que o vocacionados presentes descubram e se sintam instigados, motivados a  realizar uma viagem  por destinos desconhecidos,  e que juntos  se deixam ser atingido pela arte. E que a cada experimentação , junte  diversos  elementos  na sua bagagem    para  formar   um conhecimento   novo  e   significativo.
            No  processo   de   selecionar,   interpretar,   reformular   e   construir  esses   elementos,   o vocacionado   proporciona   mais do  que   um  quadro   ou uma canção, proporciona  parte  de   si próprio:   como   pessoa,   como seu  sentir   e   como ver. Reflexos de sua trajetoria.
            A relação   entre  o   artista   e   seu  meio   é   um  reflexo nitido  de uma   experiência artística   ou  de  criação  artística.
Sinaida, uma vocacionada, como tantos, em busca de outras imagens, outros caminhos, outros mares, se permite a vivenciar emoções, através da musica para se comunicar para, refletir sobre si mesma, e refletir suas ideias, sua arte. 
Estamos no inicio do processo de criação coletiva de música sobre o poema que Sinaida sugeriu, os vocacionados demonstram claramente que o homem aprende através dos sentidos. A capacidade de ver, sentir, ouvir, experimentar, vivenciar proporciona meios pelos quais o homem realiza uma interação com seu meio, que é proporcional à sua oportunidade de aprendizagem.


Caminhos Além Mar

A criação coletiva tomou outros caminhos e   assim os disparos que ocorreram no inicio do meu ensaio pesquisa ação em forma de poesia feita por Sinaida,   foram agora para uma viagem realmente internacional onde pude levar o grupo Tertulia  que estão há 07 anos no Programa ,composto por tres vocacionadas Analu Vasconcelos, Solane Araujo e Marcia Flemming  a Santiago do Chile para ilustrarem uma Conferencia sobre os Processos Emancipatórios das linguagens artisticas, juntamente com o Coordenador Alejandro Lopes e Amilcar Farina  no Instituto Nacional do Chile.

Atravessando as Cordilheiras

A cada momento em que a hora vira, o ponteiro me instaura uma segurança, uma tranquilidade em saber que vivi os últimos instantes e agora não posso mais muda-los. As horas passam separando o acontecimento da minha responsabilidade sobre ele. Nos poucos instantes em que a hora é cheia percebo que não atuo mais em um momento, ninguém mais pertence à ultima hora, aconteceu, passou e só pode ter sido o melhor que podia acontecer.

Continuar a navegar

Poder orientar musicalmente a artista vocacionada,Sinaida , inicante,com projeto no caminho e a caminho e com todas as possibilidades a frente do querer, trocar, compartilhar, conhecer e, e ao mesmo tempo poder orientar uma artista vocacionada ( Marcia Fleming) que esta no programa há 07 anos mais ou menos quase emancipada,  com  sede em descobrir , em querer se aprimorar, em buscar o  melhor   e querer viver arte é fabuloso tanto quanto o iniciar artistico faz refletir muito as diferentes e diferenças propostas e como municiar cada uma nas suas potencialidades, nas suas identidades.
Para ilustrar as varias possibilidades que o Programa Vocacional nos desafia enquanto Artista Orientador , coloco um pequeno trecho do que representou para a vocacionada Marcia Fleming , integrante do Grupo Tertulia, o significado de ter participado de um Congresso sobre Processos Emancipatórios nas linguagens artisticas em Santiago do Chile . 

“Sobre o vocacional por  Marcia Flemming
Escrever sobre o vocacional e não parecer romântica talvez seja impossível nesse momento. Pois ao olhar para trás, quando cantar era só uma vontade, lembro de todos os desafios pessoais, emocionais e técnicos do qual passei e continuo a passar.
Através do Projeto Vocacional Música essa vontade de cantar transformou se num projeto de vida, um projeto artístico, um sonho talvez... E sonhos são para se viver!
A oportunidade de representar o Projeto Vocacional Música no Chile foi motivo de muita alegria seguido de um sentimento de imensa responsabilidade. Pois como mostrar em tão pouco tempo a importância desse projeto?
Dentro de mim pulsava uma vontade que todos soubessem que no meu País, na minha cidade, apesar de todas as mazelas que passamos todos os dias, temos um projeto de arte que modifica para melhor a vida de muitas pessoas. Que dentro desse projeto existem artistas orientadores que são mais que professores (profissão da qual tenho a maior admiração), mas ao longo do processo percebi que esses “AOs” não estão lá para dar uma receita em como fazer arte, somos levados a questionar, refletir e experimentar. Cada indivíduo é único e possui uma história de vida que interfere positivamente ou não no processo artístico. O grupo vocal Tertúlia do qual faço parte, vive esse processo em todo encontro e estamos em busca da autonomia artística para somar ao grupo.
Quanto à apresentação no Chile, na verdade não sei se o grupo Tertúlia conseguiu demonstrar a importância do projeto em nossas vidas, pois só tivemos oportunidade de cantar 2 músicas e a carga emocional naquele momento estava alta. Mas mesmo assim foi muito bom! Espero que tenhamos outras oportunidades em representar o Projeto Vocacional Música.
Sou muito grata a todas as pessoas que participaram e que continuam presentes neste sonho de cantar. As queridas amigas Analu e Sol. Aos meus Artistas Orientadores Vanderlei Lucentini, Rosana Massuela e Alejandro López todo o meu amor. Que o Universo conspire a nosso favor e mantenha essas pessoas sempre por perto.


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 dAS PRESENTES Ações

Do EU 
Da voz
Das vozes
                           AO  Rosana Massuela  CEU Caminho do Mar

 Escalando sentidos torpes

Esgueirando-se entre espinheiras e arbustos rechecados
Falsos sinais pela trilha a ser seguida
Atalhos possíveis que levam ao impossível   
Ausência desprotegida

Quem esta livre da queda repentina?
Onde se esconde a noção?

Quem esta com a razão?
Onde habita a luz destes tempos dissimulados?

Quem ofertou a incerteza?
A quem interessa o caos de tantas vidas? 

Entre tantos pensares está nossa redenção
Nossa antevisão do desmantelo
Nosso repelente desmazelo

Prosperam os senhores e senhoras encravados em seus templos de sal e conveniências
Caminham seu caminho de certeza incerta
Constroem sólidos calabouços para seu isolamento asséptico dos horrores
Dos dissabores coletivos
Da exclusão compulsória dos menos aptos a indiferença, a descrença.

Demonstrações incontidas de sentimentos provocados pela minha adição
Adicionar a alma o éter do torpor, um minuto sem dor!
Tantas horas corroídas pelo medo, pelo desespero!
Tantas anunciações desprezadas, meus sentidos vencidos pela nuvem que encobre a razão.  

Ocasião para um não, um basta!
Mais uma dose de confiança e de esperança em minhas convicções
Caminhar meu caminho sozinho de uma vez por todas
Crer na possibilidade de encontrar tudo em mim

Quero solitariamente me estimar
Gostar de ser o que sou
Projetar minha alma para além do horizonte fictício da dependência emocional
Contar com ninguém, esquecer o dia que me vi sem companhia.

Compreender as razões de quem não viu meu olhar
Entender que dei azar
Que me faltou a mansa demonstração de amizade, de solidariedade.
Deixar de viver o passado no presente
De querer a revisão de quem nunca enxergou      
      
Pra nunca mais quero me espantar com atitudes de preconceito
Desestimular-me por não ter eco em minhas tentativas de estabelecer laços
De ter espaço onde exista calor, onde exista o conforto do amor.  

Das varias apresentações/Perfomance do vocacionados
 música CEU Caminho do Mar , participantes de 09 a 85 anos
Festa Nordestina no Ceu Caminho do Mar
Cantos e Encantos – CEU Caminho do Mar
Encontro Vocacional Zona Sul – Ceu Parque Bristol
Casamento Comunitário CEU Caminho do Mar
Encontro de Gestores da Educação Ceu Caminho do Mar
Apresentação em Homenagem aos professores DRE Santo Amaro  
  Catedral da Se  40 anos da morte de Vladimir Herzog
Ação Norte  Sul estações e performance estação  metro SÉ
Mostra Parque Bristol
Aniversario do CEU Caminho do Mar
Encontrão Dança, teatro Música entre os vocacionados no Centro Cultural Jabaquara
Mostra Final de Ano Mini temporada

  

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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Dramaturgias da impermanência: sobre a escrita de si





Percorrer o caminho do mar em parceria. Palavra rica não-abandonada. Observo um transitar e mover de corpos que não estão lutando para sobrepujarem-se, uns aos outros. Escuta, não-pressa, proposta. Encontro duas turmas- uma de dança-teatro, experiência autônoma bem sucedida do equipamento há anos, e outra de teatro. Pulsante. Com demanda! Com oferta! Mas... qual é a proposta para uma turma de dança-teatro? (existe alguma específica?) Qual seria a “pegada” em teatro?

Teatro. Impermanente. Explosões, buscas, (in) constantes. Lugar de atritos. De construção de si, ensaio e erro, poderia ser? E fixar o quê? A Pergunta móvel.
Encontro com a turma de teatro do equipamento. Grupo heterogêneo, ávido, ponto de mutação- como todos nós. Vórtice. Olho do furacão para alguns. Torno-me porosa.

Um dos elementos observados inicialmente e com aspecto altamente contagioso E potente, são os artistas vocacionados participantes de demais turmas do Programa, com seus respectivos Aos, em andamento no mesmo equipamento/Ceu. Desta forma surgiu uma questão coletiva, na qual cada um com sua contribuição particularíssima, ajudou a fomentar o pensamento-indagação: como se cria uma obra artística? OU como se dá forma aos pensamentos? OU como revelar uma questão de maneira artística? OU ainda: que pergunta faço através de minha obra-criação?

Porque trata-se sempre de perguntar. Não é? O quê de fato move? As respostas? Também? Ou elas, no nosso contexto bio-político-geográfico nos aprisionam, nos rotulam, nos pré-destinam? Podem nos fixar em couraças, tão frágeis e mutáveis, quanto o próprio homem dentro do seio-Vida, neste peculiar ano-país-cidade-bairro-rua?

Pequena-não-pequena digressão sobre a importância ou desimportância da PERGUNTA: Comecei anos atrás esta reflexão com Paulo Freire, em “Por uma pedagogia da pergunta”, que é um livro escrito “a dois”, num delicioso diálogo, e não apenas a “entrevista” que fixa perguntado-e-perguntador. 
Neste livro, Freire acredita que a inconsciência ou des-curiosidade assoladora que fabrica tanto a alienação, quanto corpos domesticados, e enfim grande parte da desigualdade social propriamente dita, está relacionada ao fato de saber: “porque perdemos a capacidade de fazer perguntas?”. 
É por causa da necessidade ancestral do homem de adquirir segurança? instinto de sobrevivência? ou o modelo pedagógico em que atuamos, (hoje século vinte e um), A-I-N-D-A reproduz o modelo pergunta-resposta? Ou seja: alguém pergunta- dentro deste saturado modelo educacional, é claro que é o aluno quem assume a função de “não-saber”, é sempre ele quem pergunta. E é o óbvio ululante, diria Nelson, que cabe ao professeur o papel de “encarnar o detentor das respostas”, o que veicula respostas, como um santo-padre-que veicula-e-atua-como-intermédio-e-mensageiro-de-Deus-e-não-como-instituição-amém, o professor também seria “o que transmite”, sempre definitivamente o que responde.

 Alguns acham que bastam subverter a ordem e já recriamos a democracia e o país. O professor pergunta, e os alunos respondem, ou buscam a resposta, e nesta busca, o saber coletivo se faz. Pode ser também. Mas isto idealmente falando. No plano da realidade, onde carteiras são arremessadas e professores ameaçados, faço apenas aqui a transposição da reflexão de Freire sobre a importância que damos ou não ao ato de perguntar no âmbito pedagógico e também artístico. Freire diz que não só andamos perdendo esta capacidade de indagar, como também de fazer “boas perguntas”. 

O pior espetáculo é sempre o que transmite “mensagens”- pensei quando li isso. Parece que vejo folhetinhos invisíveis colando nas caras dos espectadores, e estes bem podiam ter ficado em casa aproveitando o tempo com outra coisa, porque aquele grupo teatral não está interessado na sua percepção, ele já encontrou as “verdades”, as “fórmulas”, os “dogmas”, as melhores maneiras de se comportar, de se vestir, de fazer arte ou de fazer compras, de votar e de ter orgasmos, e não está muito interessado que você possa pensar diferente, mesmo que seja muito diferente, deles. Sendo assim, existem ainda MUITAS maneiras de se fazer da pergunta uma questão secundária, menos importante, “para-não-parecer-bobo” ou “para-não-assumir-ignorância”, ou ainda a versão mais eficiente dentro da cultura da eficiência que desgasta tanto empregos artísticos quanto empresariais: o famoso “importante-é-apresentar-soluções”.
São os que entendem que o ato de perguntar é sinônimo de “patinar”, “sentar no pudim”, “perder tempo” ou “não-sair-do-lugar”.  Fim da não-pequena-pequena digressão.

Fazer uma pergunta que você daria “a vida” para saber a resposta. Fazer uma pergunta que te “envolva inteiro”, que engaje todo teu raciocínio, delírio e subjetividade. 
Provavelmente uma questão não-superficial. Uma pergunta metafísica? Ou uma pergunta metalinguística? Também pode ser. Perguntas astrais-políticas-cósmicas-anarquistas-ecológicas-filosóficas-recorrentemente cotidianas ou apenas Uma pergunta. 

Pequeno novo aparte: aqui estamos no terreno de admitir e perguntar PORQUÊ interessa a esta AO especificamente, fazer perguntas ou partir da premissa “daria a vida para saber” ou “todo dia acordo pensando nisso”. Acho que sou realmente interessada pelas obsessões, e às vezes isto me basta para me mover, sair do lugar. Através das perguntas-obsessões. Ou talvez isto derive de uma maneira muito pessoal, um traço irritante de personalidade, que faz com que o ser sinta-pense-veja teatro como “urgência poética”, como “necessidade”, como “perguntas-cênicas”, e não como outra coisa. Ou ainda não sei, ou suspeito e é coisa braba.

 Ou porque algo sempre atraiu mais no que não-dito, o sedutor ainda-não-perguntado.  Ou é porque não li suficientes hai-kais na vida? Talvez seja o período curto da infância no Ceará. Não sei. Hipóteses demais. Fecho tantas aspas e recordo de um Artaud para quem “a vida é queimar perguntas”. O estado pré-expressivo da pergunta, caótico ou perdido, confuso ou sem palavras, inarticulável, aqui também nos interessa. Ou quando o ser não consegue nem formular o que não sabe, porque não sabe o que poderia saber.

Mas não se trata de se viciar em assumir o poder da palavra, o poder do discurso “inventador de verdades”, ou ainda desejar ser o semeador de vidas boas para os outros. Dá um trabalho do cão sair a distribuir promessas e verdades postiças, e mais trabalho dá ter que prestar contas de tudo que é dito a partir do “desespero em fabricar sentidos”.
No teatro como na vida, é preciso também se dispor a distinguir entre as dialéticas com “aparência de movimento”, mas na verdade são estáticas.

E a partir de tudo isso, criar uma cena que revele tua pergunta.

A pergunta pode mudar de uma hora para outra? Quando aparece a resposta, mudam-se todas as perguntas? Uma resposta dura sempre pouco? E se a impermanência (da pergunta/da resposta/de si) fosse o contrário de fugaz e superficial e ela construísse insistentemente novos corpos? A impermanência dos preconceitos e das inteligências, das revelações e dos combates, a impermanência do desejo e da coragem, a impermanência de resultados, soluções e papéis. Um constante estado permeável, poroso.
Na cena e fora dela, quase que assumindo de vez a fogueira de viver, posto que “viver não é vivível.” (Clarice Lispector). 


 CEU Caminho do mar, Programa Vocacional Teatro, AO Mônica Rodrigues, abril, maio, junho, julho 2014

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