sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Ensaio de pesquisa-ação  2015

Inter-transdisciplinaridade vocacional?


'Mas a elucidação não é inexata?' – Sim; por que não chamá-la de 'inexata'? Mas compreendamos apenas o que significa 'inexato'! Ora, 'inexato' não significa 'inútil'. E consideramos aquilo que, em oposição a esta elucidação, chamamos de uma elucidação 'exata'! Talvez, a delimitação de um distrito por meio de um traço de giz? Mas percebemos que o traço tem uma largura. Exato, seria pois, um limite de cor. Mas tem esta exatidão ainda uma função? Não se esvazia? (Ludwig Wittgenstein).

Este ano o Programa Vocacional propôs a integração das linguagens, criando equipes com artistas orientadores com formações diversas e com coordenações que também possuem formações diferentes às da equipe.

Esta proposição vai ao encontro das diretrizes do programa que visam uma aproximação do fenômeno artístico sem aprofundar em questões técnicas específicas de cada linguagem. Neste sentido o consentimento com a ideia foi amplo no começo do ano de trabalho. A ideia era provocadora e instigante.

Aos poucos fui percebendo que seria mais complicado do esperado sair do plano teórico e poder aplicar a proposta nas práticas concretas dos artistas orientadores.

Em edições anteriores o Programa Vocacional propôs  Interlinguagens e Artes Integradas como duas possibilidades entre as linguagens “tradicionais” oferecidas: teatro, música, dança, artes visuais. Pela própria dinâmica do programa onde em um curto período de tempo é necessário dar conta de muitas demandas, não consegui acompanhar o desenvolvimento dessas propostas. O fato é que neste ano essas linguagens foram retiradas e a proposta foi que a integração ou transdisciplinaridade acontecesse nas equipes. Acredito que a arte contemporânea caminha no sentido dessa integração, as fronteiras entre as linguagens estão cada vez menos nítidas. A necessidade do artista é de se expressar e comunicar a sua visão do mundo e para isto são utilizados todo tipo de recursos e ferramentas sem considerar a que disciplina elas pertencem. Isto acontece tanto no campo “erudito”, quanto no “popular”.

Penso que esta tendencia atual da arte deve ser levada em consideração nos processos do Vocacional.


Explicito aqui alguns  fatores, que entendo, poderiam ser os motivos pelos quais a transdisciplinaridade é uma ideia atrativa, mas difícil de levar à prática.

Em primeiro lugar observo que existe uma certa resistência para conseguir se livrar da formação tecnicista que muitos de nós recebemos e que nos deixa vulneráveis, se a proposta é sairmos da zona de conforto. O risco, o fracasso como possibilidade do processo artístico-pedagógico incomoda e portanto, é evitado. Esta observação não é uma generalização e cabe ressaltar o esforço de alguns artistas em assumir esse risco e propor procedimentos, experimentos e ações sobre as quais não terão controle e cujos resultados saem totalmente dessa zona de conforto.

Desde o ponto de vista da coordenação também assume-se o risco de provocar e estimular a ideia. É uma grande responsabilidade que deve provocar e estimular um pensamento amplo sobre a arte, onde as experiências devem apontar para o campo do sensível, onde a atitude estética seja mais importante que o aprendizado ou desenvolvimento de procedimentos de determinada linguagem. Estes procedimentos e exercícios também são válidos e não podem ser negados, mas exige coragem se arriscar em novos e desconhecidos territórios.

Este ano presenciei uma experiência transdisciplinar concreta que paradoxalmente não começou por causa da proposta norteadora do programa, pois já vinha sendo desenvolvida desde edições anteriores do programa. A orientação de dança-teatro conduzida pelas artistas orientadoras Mônica Rodrigues e Cristina Ávila pode ser colocada como exemplo onde o risco e a experimentação estão presentes e onde a transdisciplinaridade acontece de fato e com sucesso. As artistas trabalham nesse formato desde o ano passado e a proposta de manter tanto o formato quanto as artistas orientadoras foi feita pelo equipamento (CEU Caminho do Mar) cujo Núcleo de Ação Cultural compreende e apoia as diretrizes que norteiam o ProgramaVocacional, portanto é um parceiro real para o bom desenvolvimento das atividades do programa.

Outro fator que considero importante e que contribuiu para que a transdisciplinaridade não fosse aprofundada é o fato de o Programa Vocacional fazer parte de uma política pública que deveria ter um pensamento mais crítico sobre os conceitos que propõe. Considero que faltou uma formação adequada para embasar os artistas participantes do programa e poder assim estimular mais propostas onde o risco e o salto ao vazio fossem a tônica dos procedimentos artísticos. Considero que uma parcela importante de responsabilidade sobre os resultados e alcance real do programa esta também nos gestores e coordenadores dos equipamentos que desconhecem e não compreendem na real dimensão o trabalho desenvolvido no programa.

Propiciar um terreno fértil para a discussão e o levantamento de ideias é uma das tarefas do coordenador de equipe e, nesse sentido, assumo a responsabilidade por não ter sabido acompanhar e estimular essas ideias para que a equipe como um todo, pudesse ter caminhado na mesma direção.

Embora a autocrítica é necessária, destaco duas ações que considero foram as que, como equipe, conseguimos transitar no caminho da transdisciplinaridade, a primeira foi uma ação da equipe onde as artistas orientadoras juntaram todos os vocacionados e numa atividade coletiva conseguiram passar por experiências sensíveis onde o movimento, o som e a palavra estavam conectados e unidos numa única vivência. A segunda ação foi o Corredor Norte- Sul que envolvia a equipe Sul 1 e uma equipe da Zona Norte. Foi uma experiência performática no metrô onde os vocacionados se deslocaram até o extremo oposto da suas regiões de origem.

Entendo que a meta deve ser criar um pensamento organizador que ultrapasse as próprias disciplinas, procurando o que as atravessa. Acredito que este deve ser o caminho a transitar no futuro, um caminho de incertezas e desafios que são inerentes aos preceitos do Programa vocacional. Manter as singularidades de cada linguagem artística e ao confrontá-las, fazer surgir uma nova visão da realidade e portanto da arte.

Alejandro López Jericó
Coordenador de Equipe Sul 1.

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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Dramaturgias da impermanência: sobre a escrita de si





Percorrer o caminho do mar em parceria. Palavra rica não-abandonada. Observo um transitar e mover de corpos que não estão lutando para sobrepujarem-se, uns aos outros. Escuta, não-pressa, proposta. Encontro duas turmas- uma de dança-teatro, experiência autônoma bem sucedida do equipamento há anos, e outra de teatro. Pulsante. Com demanda! Com oferta! Mas... qual é a proposta para uma turma de dança-teatro? (existe alguma específica?) Qual seria a “pegada” em teatro?

Teatro. Impermanente. Explosões, buscas, (in) constantes. Lugar de atritos. De construção de si, ensaio e erro, poderia ser? E fixar o quê? A Pergunta móvel.
Encontro com a turma de teatro do equipamento. Grupo heterogêneo, ávido, ponto de mutação- como todos nós. Vórtice. Olho do furacão para alguns. Torno-me porosa.

Um dos elementos observados inicialmente e com aspecto altamente contagioso E potente, são os artistas vocacionados participantes de demais turmas do Programa, com seus respectivos Aos, em andamento no mesmo equipamento/Ceu. Desta forma surgiu uma questão coletiva, na qual cada um com sua contribuição particularíssima, ajudou a fomentar o pensamento-indagação: como se cria uma obra artística? OU como se dá forma aos pensamentos? OU como revelar uma questão de maneira artística? OU ainda: que pergunta faço através de minha obra-criação?

Porque trata-se sempre de perguntar. Não é? O quê de fato move? As respostas? Também? Ou elas, no nosso contexto bio-político-geográfico nos aprisionam, nos rotulam, nos pré-destinam? Podem nos fixar em couraças, tão frágeis e mutáveis, quanto o próprio homem dentro do seio-Vida, neste peculiar ano-país-cidade-bairro-rua?

Pequena-não-pequena digressão sobre a importância ou desimportância da PERGUNTA: Comecei anos atrás esta reflexão com Paulo Freire, em “Por uma pedagogia da pergunta”, que é um livro escrito “a dois”, num delicioso diálogo, e não apenas a “entrevista” que fixa perguntado-e-perguntador. 
Neste livro, Freire acredita que a inconsciência ou des-curiosidade assoladora que fabrica tanto a alienação, quanto corpos domesticados, e enfim grande parte da desigualdade social propriamente dita, está relacionada ao fato de saber: “porque perdemos a capacidade de fazer perguntas?”. 
É por causa da necessidade ancestral do homem de adquirir segurança? instinto de sobrevivência? ou o modelo pedagógico em que atuamos, (hoje século vinte e um), A-I-N-D-A reproduz o modelo pergunta-resposta? Ou seja: alguém pergunta- dentro deste saturado modelo educacional, é claro que é o aluno quem assume a função de “não-saber”, é sempre ele quem pergunta. E é o óbvio ululante, diria Nelson, que cabe ao professeur o papel de “encarnar o detentor das respostas”, o que veicula respostas, como um santo-padre-que veicula-e-atua-como-intermédio-e-mensageiro-de-Deus-e-não-como-instituição-amém, o professor também seria “o que transmite”, sempre definitivamente o que responde.

 Alguns acham que bastam subverter a ordem e já recriamos a democracia e o país. O professor pergunta, e os alunos respondem, ou buscam a resposta, e nesta busca, o saber coletivo se faz. Pode ser também. Mas isto idealmente falando. No plano da realidade, onde carteiras são arremessadas e professores ameaçados, faço apenas aqui a transposição da reflexão de Freire sobre a importância que damos ou não ao ato de perguntar no âmbito pedagógico e também artístico. Freire diz que não só andamos perdendo esta capacidade de indagar, como também de fazer “boas perguntas”. 

O pior espetáculo é sempre o que transmite “mensagens”- pensei quando li isso. Parece que vejo folhetinhos invisíveis colando nas caras dos espectadores, e estes bem podiam ter ficado em casa aproveitando o tempo com outra coisa, porque aquele grupo teatral não está interessado na sua percepção, ele já encontrou as “verdades”, as “fórmulas”, os “dogmas”, as melhores maneiras de se comportar, de se vestir, de fazer arte ou de fazer compras, de votar e de ter orgasmos, e não está muito interessado que você possa pensar diferente, mesmo que seja muito diferente, deles. Sendo assim, existem ainda MUITAS maneiras de se fazer da pergunta uma questão secundária, menos importante, “para-não-parecer-bobo” ou “para-não-assumir-ignorância”, ou ainda a versão mais eficiente dentro da cultura da eficiência que desgasta tanto empregos artísticos quanto empresariais: o famoso “importante-é-apresentar-soluções”.
São os que entendem que o ato de perguntar é sinônimo de “patinar”, “sentar no pudim”, “perder tempo” ou “não-sair-do-lugar”.  Fim da não-pequena-pequena digressão.

Fazer uma pergunta que você daria “a vida” para saber a resposta. Fazer uma pergunta que te “envolva inteiro”, que engaje todo teu raciocínio, delírio e subjetividade. 
Provavelmente uma questão não-superficial. Uma pergunta metafísica? Ou uma pergunta metalinguística? Também pode ser. Perguntas astrais-políticas-cósmicas-anarquistas-ecológicas-filosóficas-recorrentemente cotidianas ou apenas Uma pergunta. 

Pequeno novo aparte: aqui estamos no terreno de admitir e perguntar PORQUÊ interessa a esta AO especificamente, fazer perguntas ou partir da premissa “daria a vida para saber” ou “todo dia acordo pensando nisso”. Acho que sou realmente interessada pelas obsessões, e às vezes isto me basta para me mover, sair do lugar. Através das perguntas-obsessões. Ou talvez isto derive de uma maneira muito pessoal, um traço irritante de personalidade, que faz com que o ser sinta-pense-veja teatro como “urgência poética”, como “necessidade”, como “perguntas-cênicas”, e não como outra coisa. Ou ainda não sei, ou suspeito e é coisa braba.

 Ou porque algo sempre atraiu mais no que não-dito, o sedutor ainda-não-perguntado.  Ou é porque não li suficientes hai-kais na vida? Talvez seja o período curto da infância no Ceará. Não sei. Hipóteses demais. Fecho tantas aspas e recordo de um Artaud para quem “a vida é queimar perguntas”. O estado pré-expressivo da pergunta, caótico ou perdido, confuso ou sem palavras, inarticulável, aqui também nos interessa. Ou quando o ser não consegue nem formular o que não sabe, porque não sabe o que poderia saber.

Mas não se trata de se viciar em assumir o poder da palavra, o poder do discurso “inventador de verdades”, ou ainda desejar ser o semeador de vidas boas para os outros. Dá um trabalho do cão sair a distribuir promessas e verdades postiças, e mais trabalho dá ter que prestar contas de tudo que é dito a partir do “desespero em fabricar sentidos”.
No teatro como na vida, é preciso também se dispor a distinguir entre as dialéticas com “aparência de movimento”, mas na verdade são estáticas.

E a partir de tudo isso, criar uma cena que revele tua pergunta.

A pergunta pode mudar de uma hora para outra? Quando aparece a resposta, mudam-se todas as perguntas? Uma resposta dura sempre pouco? E se a impermanência (da pergunta/da resposta/de si) fosse o contrário de fugaz e superficial e ela construísse insistentemente novos corpos? A impermanência dos preconceitos e das inteligências, das revelações e dos combates, a impermanência do desejo e da coragem, a impermanência de resultados, soluções e papéis. Um constante estado permeável, poroso.
Na cena e fora dela, quase que assumindo de vez a fogueira de viver, posto que “viver não é vivível.” (Clarice Lispector). 


 CEU Caminho do mar, Programa Vocacional Teatro, AO Mônica Rodrigues, abril, maio, junho, julho 2014

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A experiencia de dança-teatro Ou o não-controle libera o poema




DANÇA TEATRO

A experiência da turma de dança-teatro no equipamento CEU Caminho do Mar, aponta para umas das realidades poéticas multifacetadas de uma cidade como São Paulo: as pessoas buscando se confrontar com a experiência. A urgência-necessidade dos artistas-vocacionados em se lançar em territórios inabitados ou desconhecidos. Sobretudo uma experiência difícil de definir-  o que é ou viria a ser dança-teatro na história da arte. 

É dádiva ou maldição? Os manuais repletos de definições foram todos quebrados com a atuação de mestres e intérpretes cada vez mais ousados ao longo do tempo. Em alguns casos as fronteiras entre estas linguagens diluíram-se tanto. E também se reinventaram e se implodiram. Mas é claro que, ainda hoje em dia, existem acirradas disputas conceituais como se fazia antes com os duelos. E hoje se armam de quê? Não sei. Só não compreendo bem as regras de tal jogo. 

As referências de saberes não deveriam servir nunca para nos digladiar ou defender os “princípios” de cada linguagem. Considero uma grande perda de tempo. Eu só posso perceber a experiência de realizar uma turma entre linguagens extremamente fascinante, provocadora e inquieta. Como pesquisar sem sair do lugar??
E quê hibridismo possível sai de uma cidade eclética, dialética, complexa e absurda quase sempre?
A turma heterogênea dá conta de expor estes afincos. As pontas transversas e as rasgaduras não-unilaterais. Não há idade nem perfil organizador. Só a multiplicidade jorrante.

Observação Sobre o poema que se deseja criar:
O poema não sai das mãos sem uma sensação física de liberação.  É bom que se repita: o poema não é nunca "mental" apenas.  Um escorrer poético de látex corpóreo que desliza dos ouvidos, olhos, mente, e desce até dedos, mãos, pés. 
E minha inquietude poética é física, como a sensação de formigamento antes de escrever um poema.

Observações preguiçosas 1: Dizem por aí, (já faz tempo) que vivemos o caos apocalíptico da crise da forma, dos conteúdos, de everything. Pra alguns isto bastaria para arrematar com esta vida, ou fugir para as ilhas Malvinas. E já ouvi mais de uma vez a simplificação: “no teatro se fala, dança é corpo, teatro é para pensar- dança é só pra sentir, teatro é político, dança é subjetivo, ou ainda: teatro é discurso, dança é desenho livre. Ou: o teatro é lugar do autoritarismo da palavra, e a dança é a liberdade plena de todas as vozes”.

Apesar de assumir um território de não-controle sobre os debates estéticos, para organizar o trabalho, a comunicação foi intensa entre eu e minha parceira, a artista orientadora de dança Cristina Ávila. Pois imediatamente dispensamos o papel de responder e tipificar as perguntas dos vocacionados mas nos dispusemos a pesquisar juntos. A ressignificar vivências e entendimentos, mas sobretudo de nos lançarmos também para uma prática que disparasse as perguntas. O repertório foi aprofundado, vasculhado com calma, e às vezes implodido, encontrando e re-pensando elementos da pesquisa.

Desta forma, encontramos a experiência do “espaço aberto”, ou simplesmente constante improviso. Alguns elementos cênicos, acordos previamente combinados (como entrar no espaço para afetar e ser afetado), entre outros disparadores, foram suficientes para ampliar a experiência de escrever dramaturgias a partir do encontro no improviso.

Sabemos que improvisar é como um grande baú de onde se tira grandes tesouros num dia, noutros não se tira nada. E nestes “dias poucos produtivos”, engraçado, também parece que tiramos do baú alguma coisa...

A questão das fronteiras (?) entre as linguagens, da crise das formas, e da experiência do espaço livre-aberto, contraditoriamente e dialeticamente, nos levou para a perspectiva do ensaio e da repetição. A repetição como estrutura, e onde contasse menos a intenção de organizar idealmente para “apresentar algo”, (não controlar fagulhas nem corpos) e mais a vontade de retornar muitas vezes aberto para o MESMO material, talvez a repetição tenha se tornado um TERRITÓRIO a ser investigado. Para ser desmontado mais uma vez.



Ceu Caminho do Mar, Programa Vocacional, Teatro + Dança, AO MÔNICA RODRIGUES (atuando em parceria com AO Cristina Ávila- dança), abril, maio, junho, julho 2014. 

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Sobre a escrita de si a partir da Pergunta-que-move



Zona Sul, Ceu Caminho do Mar. Teatro. Linguagem de algum lugar. Vocacionad@s.
Pergunta que move. O rio.
Da trajetória das impermanências e a partir daquilo que se pergunta, os vocacionados dali se projetaram para a escrita de si mesmos, em suas dramaturgias autorais. Sofisma ou utopia? Prefiro utopias, são refrescantes, e nunca saem de moda. Bem ao contrário da aparência de intelectualidade morna que nunca sacoleja nem rumoreja paisagens. Mas falarei depois sobre a carcaça ideológica.

Descobri no fazer-ação um modo insólito de desvelar as camadas do outro. Quando eu te pergunto: qual tua pergunta essencial? Ou “o que você acorda todo dia com vontade de perguntar À Vida?” - que pensamento-sensação bruta, despontou em seu lábio-mente??

Pois acho que é daí mesmo que surgem as grandes construções dramatúrgicas, os grandes textos. Grande pode ser só uma frase e durar 2 minutos em cena. Grande pode ser um gesto no ar. Grande é a luta dos corpos- todos os nossos, para sobreviverem á labuta econômica-social, e ainda chegar à noite com disposição de fazer UM GRANDE ENCONTRO, assentir com o imprevisível, e com o outro. Quando dizemos: encontrar com o novo” ... percebo que estamos de novo, buscando O MESMO... porque esteve sempre ali, não esteve? E porque não reparei daquela vez, e sim hoje?? Mas O MESMO nunca é o ÓBVIO. O mesmo aqui pode ser algo além dentro de si. Apaixono-me com a possibilidade de uma pessoa vir a transformar-se nela mesma. 

Descascando nós próprios através da escrita. Só precisaríamos de mais 7 meses e meio de projeto para dar conta de todos os olhares, textos, poéticas, urgências, materialidades, linguagem, trocas com comunidade e público, e um a um, tocar o devir cênico que surgiu diante de nós a cada vez.
Fico tão gratamente surpresa ao perceber que TODOS escrevem. Todos buscam LINGUAGEM. Dizer isso não significa que todo mundo tá cheinho de ideia, e isso pressupõe que elas, de cara, sejam BOAS IDEIAS, e também isso faz supor idealmente, que todo mundo tá louquinho de vontade de só SE expressar, de mostrar ao mundo a que veio, de berrar sua autoafirmação. Nãoooo...

Eu ainda não sei porque vim ao mundo nem porque quando cheguei já tava tudo desse jeito.
Eu também não posso afirmar o destino exato de uma cena, de um poema, de uma carta. Muito menos de uma nação, que dirá de um espetáculo!
Eu só posso buscar LINGUAGEM.
Quando se busca linguagem, também está se buscando o onírico. Porque linguagem É invenção. Pode ser só reprodução também, mas isso fica a critério do cliente. Nessa viagem urbanoide tresloucada, todo mundo arrisca e afia linguagens. O tempo todo. Nisso tudo eu desconfio que ainda sejamos escravos do ouvido, e só damos atenção (bem pouca, diga-se de passagem) ao que é verbal. O que é PRESENÇA, nós somos educados desde cedo a ignorar. Ou temer. 

Escrevendo, sou obrigada a lançar possibilidades. A vasculhar memória, política, delírio e poesia. Tudo dentro e junto. E depois fora, e também sozinho. EM CENA. Nesse processo de escrever o próprio texto, a conceber a própria cena/encenação, a buscar solucionar/experimentar outras materialidades plásticas, a rever a estética da minha questão cênica (sonoridade, produção, presença, contexto, etc.), reconheço que escrever uma cena a partir da questão-que-move produz uma certa repercussão na pessoa, que é imediatamente política, social, cidadã, poética e intransferível. Pois se recriam mesmo realidades. Muita atenção nessa hora, pois acredito que não está claro para a “humanidade” que recriar realidades não é de forma nenhuma APONTAR SOLUÇÕES... Nós só suspeitávamos, a partir de alguns estudos sobre dramaturgia e encenação, o que NÃO é papel de uma cena: fazer proselitismo, defender ou acusar unilateralmente, abdicar do corpo, cristalizar ou tentar impor “verdades”, acreditar que a voz racional é a única a ter legitimidade, reproduzir limbos emocionais, entre outras coisas difíceis de definir, porém igualmente muito presentes, tanto quanto o desejo de falar. (sim, só mais 7 meses-só mais sete meses, por favor...)
Obs 1: Até o momento, Recriar realidades pressupõe paradoxos, indagar, pesquisa e elaboração poético-corpórea.
Talvez isso dê uma pista para elucidar e também quem sabe, recriar os comportamentos. Porque, na atual Sociedade do Medo, há tantos açoites, mais temidos que sentidos, tanta palavra bonita não dita e desejada, TANTO corpo por aí sem ideia de que é um corpo, que olha.... Melhor não dizer. Melhor OLHAR melhor. Melhor perceber...

Observação intermitente:
Manifesto nº 20.231, em prol do Risco Para Todos, ou #Deixa eu sair da carcaça ideológica por favor!
Porque para surgir LINGUAGEM é necessário parir paradoxos.
Uma cena não se sustenta com moral. Isso já sabemos.
Não se sustenta um texto sem dialética. Isso quase sabemos.
“Mas não peça para eu sair da minha carcaça ideológica que daí eu me ferro mesmo. Como vou sobreviver??”
Risco na cesta básica do brasileiro. Mas não o famoso risco social, da vulnerabilidade diante da omissão, do descaso ou ódio. Não ESTE risco da sujeição abjeta e injusta.
Por uma necessidade da desproteção e de desarme, depor a carcaça dos grandes marcos ideológicos por alguns minutos diários, para uma ação de fusão-alquímica com a realidade. 

É humanamente impossível zerar nosso repertório (intelectual/físico/psicológico/sexual/ etc). 

Só é possível subverter a carcaça, se pudermos delirar a linguagem. Se propondo até à aparente idiotia, ao Risco, a ser Stalker de sua própria Zona, à dizer para a Grande-Voz-do-Filósofo-E-Crítico-Social que baixa em nosso ouvido no centro espírita: agora não. Deixa eu viver primeiro.” 

“Eu me distancio de todo ser que eu nunca vi chorar. Eu nunca assisto filme ruim porque é de graça. Eu reservo para o amor e o futebol as minhas melhores contradições.” (M.R.) 

No âmbito artístico, considero que cada vez mais, na ânsia de apagar os fogos de artifício dos criadores ou na preocupação em delimitar os rígidos limites profissionais, as pessoas (cada vez mais) aumentam consideravelmente a distância da ponte que os liga. É uma época muito banal essa em que se pode morrer de desespero ao lado do seu mais fiel amigo. A questão posta não é de “respeito ao tempo do outro” ou à noção não idealizadora que cada um deveria fazer de seu oficio e de sua competência. Porque também não se deve amassar o ossinho de Complexo de Atlas. Torna-se necessário tirar dos ombros este perverso fardo social, ser inversamente Jesus. 

Eu só me pergunto porque estava ali do lado, e não percebemos...Porque?
Enquanto organizo roteiros, canovaccio, textos, colagens, me dou conta de que não há ordem possível. Colocar uma cena na frente de outra, é sem dúvida, só ir pelo caminho do acaso... porque os filetes dos rios são numerosos, fartos, e extensos... Eu caminhei seguindo o rio, até perceber que estava mergulhada inteira nele. “O rio debaixo do rio” (Clarissa Pinkola Estés).

Desse rio, bebo. Desse rio, falo agora. Desse rio debaixo do riso e das sobrancelhas arqueadas.  
Dos fluxos aparentemente desordenados, puramente caóticos ou sem sentido, brotam as Escritas Emergentes a partir de si mesmo. Se dando conta, de repente, que o si mesmo é um mundo. 

Este. 



Mônica Rodrigues/ Programa Vocacional /Teatro-CEU Caminho do Mar
Novembro/Outubro/Setembro- 2014

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