domingo, 30 de novembro de 2014

Isso não é um ensaio

Isso não é um ensaio.
                                                                                                                         A.O Verônica Mello
Veronica Pereira Pinto
equipamento: Tendal da Lapa
equipe Centro  Oeste

Nasci para administrar o à-toa
o em vão
 
o inútil.
Pertenço de fazer imagens. 
Opero por semelhanças.
 
Retiro semelhanças de pessoas com árvores
 
de pessoas com rãs
 
de pessoas com pedras
 
etc etc.
Retiro semelhanças de árvores comigo. 
Não tenho habilidade pra clarezas.
 
Preciso de obter sabedoria vegetal.
 

(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã no talo.)
 

E quando esteja apropriado para pedra, terei também
 
sabedoria mineral.

Manoel de Barros

Aqui começo destruindo meus escritos. Desistindo de escrever algo para outro. Desistindo de escrever um ensaio. Afinal, quem vai ler? A quem interessa isso? Eu não sei escrever ensaio. Portanto o destruo desde já. Se você veio aqui para ler algo organizado que esclareça como foi o ano de trabalho em 2014 no Tendal da Lapa, etc, etc. Pode dar a volta e buscar outros textos. Este não dá conta disso. Eu não dou conta disso.
Comecei escrevendo sobre o processo das turmas. Repetindo relatos feitos diversas vezes durante o ano. Sobre a demanda do Tendal da Lapa, sua característica de passagem que favorece a formação de núcleos que desejam mais estabilidade (já que todos só passam por lá e não se comprometem), sobre a lente de aumento dada nesse ano ao processo com procedimentos de criação, recriação e destruição de cenas-rascunhos trazendo o processo como foco aumentado da pesquisa. Pronto. E desisti de fazer isso. Vou publicar esses outros textos inacabados aqui no final desse não ensaio. Para quem estiver curioso e chegar até lá saiba: não se fecham. não terminam. não tem lógica.
Como este aqui que é mais um fluxo de pensamento-caótico. Eu não sei escrever ensaio. Então eu grito! Tem alguém aí do outro lado da linha? Estou sozinha? Estou só ao pensar que o processo vivido nesse tempo-espaço curto de menos de 8 meses não se prontifica a ser ensaiado aqui? Porque não cabe. Porque não dá pra medir. Porque não posso. Seria reduzir. Demais. Então eu falo! Destruo este ensaio. Retalho pontos escritos pelo tempo curto que tivemos. A quem interessa mesmo isso? Um projeto que deveria ser contínuo e se finda a cada ano deixando um vácuo de descontinuidade. Um projeto que poderia ser outra coisa. Se tivesse mais interesse público. Se fossemos escutados. Se tivéssemos voz. Eles – os vocacionados – encontram cada vez mais as vozes deles – dentro do espaço do encontro. Os processos são muito intensos. Nós vivemos lindamente momentos de crise, desistência, persistência, resistência artística e pessoal. Mas a quem interessa mesmo? A nós que vivemos isso. Sim. Leio pra vocês esse relato. Parceiros de caminhada. Talvez tenhamos tempo para isso...
Ensaiar. Todos os dias nós ensaiamos a possibilidade de criar velhas/novas estéticas. Novos desejos para falar. Falamos. Gritamos. Quando os barulhos do Tendal ressoam nas paredes isso se faz necessário. E vamos pra rua. Lá tem gente viva, querendo continuar morta. Temos que tentar olhar para elas. Tentar não morrer junto. Não sucumbir à rotina de estar sempre caminhando em direção a algo útil. Para quem? Plagio: Quero ser Inútil. Sempre quis. Vocês não precisam mais de mim para isso. Vocês já conseguem olhar para o outro e descobrir que podem reagir a algo. Falar com as paredes em frente ao mercado, ouvir um homem pedindo foco para sua história descabida ou se aproveitando do movimento para fugir da Polícia... fazendo fila ao contrário, criando imagens de revistas na praça, seguindo as pessoas como sombras, guiando-as cegas por um labirinto sensorial ou levantando as cegueiras delas num labirinto de conceitos, trazendo as doenças de vocês para que todos se lambuzem em anilina e mel, falando de uma Rússia Brasileira individualista, buscando formas de lidar com os espaços, levando o público a uma experiência sensorial com o tempo, questionando os dogmas religiosos e científicos, materializando algo subjetivo em nossa sociedade que vê a mulher como mercadoria e não assume em palavras. Rascunhos. Transformados. Recriados. Vocês já sabem por onde podem ir.
Seguem sem forma, os textos rabiscos que escrevi neste ano. Tive pouco tempo para palavras. Tive que tentar dar conta de demandas. Cinco núcleos. Uma orientadora... Todo o tempo foi para tentar criar redes. Veio o Cruck, que provocou nossas possibilidades de estar ali. Vimo-nos bloqueados por não desejos de relação. Vocacional Teatro isolado. Mas já somos muitos. Então seguimos. Num desejar estar junto quase impedido por tempos diferentes, trabalhos diferentes, estudos diferentes. O mundo útil toma conta da gente. Toma tempo da gente. Nos aprisiona. Mas continuamos resistindo. Provocando possibilidades de estar. Ali. Naquele tempo-espaço proposto. Tentando encontrar outros tempos possíveis. Ali...
Mas você que não está lendo isso pode estar pensando: essas despalavras passam assim como despropositadas por mim. Não me dizem nada. Não me alimentam, não existem. Assim são mesmo. Eu respondo sem medo de ser desentendida. Assim eu desescrevo o que me passa em pensamentos. Como pássaros, os pensamentos podem voar sem necessidade de amarras, gaiolas, prisões. Assim desensaio palavras pensamentos sobre o que foi. Para que você que não leu, possa entrar dentro de meu não tempo-ensaio, do meu inútil pensar, na minha ânsia por desobrigar, desmedir, desentender o que é imposto e surge sem vontade. Essa vontade que vai surgindo a fórceps a cada palavra sem sentido aqui escrita, pois essas palavras sem sentido, são em mim uma forma de desabafar os sentidos tomados nesse curto tempo em que estive junto a pessoas incríveis, a pessoas reais, a pessoas que fazem sentido, a pessoas que não cabem aqui.



Então vamos aos retalhos:

pensamentos soltos sobre o espaço Tendal da Lapa

trem
caminho de ida
e volta.

de onde vem?
o que desejam?
porque vem e voltam?
para onde partem?

o tempo ali parou. tudo continua sempre despencando. eternamente, as árvores crescem.

tudo de novo. caminhos recomeços. estação de trem, sons, espaços fechados abertos, sons, chão sujo, sons, barulho. uma legião de pessoas passam pela lapa e aquele espaço desconhecem. o que acontece ali? é o poupa tempo? chega, faz documento, sai? não. se precisar de algo rápido ali, vai ser difícil conseguir. tempo. ali parece que está parado. um tempo antigo passa ali. uma história em tijolos e paredes. minha história. história de muitos. desejos diversos. um lugar onde muitos passam. alguns ficam. ali acontece sempre muita coisa. hoje mais do que antes. hoje mais sons. hoje também mais barulhos. hoje mais grupos de teatro tentando fazer algo que os movam. iniciantes que passam e depois ficam. outros passam e não voltam mais. as pessoas não criam vínculos facilmente. eu tento. isso sempre me incomodou. incomoda muito. as pessoas marcam seu passos por onde passam e esquecem que outros esperam ansiosos o retorno. continuando... eu continuo... mais um ano. grupos antigos e turmas novas. muitas pessoas. cinco núcleos. uma a.o. – eu. de novo tenho que tentar dar conta do que não cabe em mim? mas são tão interessantes. interessados. evolvidos. desejosos de estar lá. quase moram no sábado. me interessa também. estar ali em relação. mas como fazer?
--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
AUTORRETRATO
Manoel de Barros

Ao nascer eu não estava acordado, de forma que
não vi a hora.
Isso faz tempo.
Foi na beira de um rio.
Depois eu já morri 14 vezes.
Só falta a última.
Escrevi 14 livros.
E deles estou livrado.
São todos repetições do primeiro.
(Posso fingir de outro, mas não posso fugir de mim).
Já plantei dezoito árvores, mas pode que só quatro.
Em pensamento e palavras namorei noventa moças,
mas pode que nove.
Produzi desobjectos, 35, mas pode que onze.
Cito os mais bolinados: um alicate cremoso, um
abridor de amanhecer, uma fivela de prender silêncios,
um prego que farfalha, um parafuso de veludo, etc. etc.
Tenho uma confissão: noventa por cento do que
escrevo é invenção; só dez por cento que é mentira.
Quero morrer no barranco de um rio: - sem moscas
na boca descampada.
Autorretrato

retrato de uma pessoa feito por ela própria.
                   tirar o retrato a
         fotografar
fazer a pintura de
                   representar ou descrever com exatidão
                                                        deixar transparecer, revelar
espelhar-se – patentear-se – reproduzir-se

Com o intuito de conhecer-nos um pouco mais, cada um dos vocacionados estão criando seus autorretratos.
Com foco na relação O QUE X COMO,  cada um despe-se de um detalhe de si, de algo oculto, ou de algo falso.
Uma relação sutil entre verdade e mentira. Real e imaginário. Eu me vejo como desejo.

         Um segundo passo: em grupo. O que querem retratar? Surgem os rascunhos. Possibilidades de processo vivo. Exposto. A cada momento podendo se transformar. Se redesenhar.
um projeto de rascunhar, rabiscar cenas. ou como pesquisar desfazendo certezas.

começamos com a ideia de autorretrato. objetivo simples: conhecer quem eram as pessoas que ali estavam. o que desejavam? arriscamos esse caminho e por ele fomos. um depois do outro se seguiram. deles o desejo de saber: o que o coletivo gostaria de retratar. continuamos. passos para cenas mais coletivas. ali nos arriscamos assim: cada um traria novas camadas de tintas / presentes para o outro grupo. cada grupo passaria a redesenhar seu rascunho de pesquisa e assim fomos. rascunhando.
o processo como foco aguçado. o processo como resultado diário. a se apresentar e jogar fora se desejar. ou a aprofundar de o rio pedir um mergulho.
temas que se partiram os rascunhos:

Uma mulher se olha no espelho.
Quem é ela?
O que o espelho mostra?
O que ela sente?
O que ela vê?
O espelho mente?
Ela não quer ser como é.
Mas o espelho insiste. Continuado. Ali parado. Mostra sua face.
Ela é assim? Tem que ser? Sempre?
Dizem que o espelho guarda a alma de quem se mira.
A alma do espelho...
A dela está perdida.
____________________________________________________________
tempo. na cidade. ele nos devora. come cegamente. ele nos alimenta, nos mantém vivos até que ele deseje terminar com tudo. ele nos sufoca se entramos nos redemoinhos relógios que nos aprisionam.

Quem é você? Escravo do tempo? Um tempo em movimento?
Cada um poderia responder como quisesse. A resposta é um fato inventado.
A inspiração da invenção poderia se uma verdade ou uma imaginação.
Mas o tempo parece aprisionar. Prender. Agarrar.
Ele insiste em existir.
tic tac. tic tac.
Como um coraçãozinho preso ao pulso o tempo continua.
Eu ali continuado.
tic tac. tic tac.
Existindo.
____________________________________________________________

é um homem ou um macaco?
controlado por um deus – oniprepotente – um homem
é um homem ou um macaco?
um anjo que se repete a soar – um macaco.
é um homem ou um macaco?
controlado continua a obedecer.
o que importa? ele é controlado. Ele segue.
Como máquina.
____________________________________________________________

PROGRAMA
autorretrato no espaço.
ou dando um espaço para ser.
1.       Encontrar um lugar no espaço. Encontrar um espaço no lugar. Encontrar você no espaço. Encontrar um espaço em você. (Tempo: até todos chegarem no espaço escolhido)
2.       Escolher uma folha, uma cor, uma imagem, um desejo, um amor, uma dor e desenhar seu autorretrato. Escrever seu autorretrato, olhar e ler seu autorretrato. (Tempo: 15 minutos)




trecho do livro Acorn de Yoko Ono  para inspiração

3.       Escolher um lugar onde seu autorretrato possa ser colocado, instalado. (Tempo: necessário para achar o lugar e voltar para o centro do espaço e encontrar as outras pessoas)
4.       Caminhar pelo espaço. Observar as pessoas. Cada um. (Tempo: necessário para ver todos algumas vezes)
5.       Caminhar pelo espaço. Observar os autorretratos dos outros. Escolher um que não seja seu. (Tempo: necessário para escolher)
6.       Inspire-se nele. Sinta-se como ele. Invente quem é ele. Faça o autorretrato dele em palavras. (Tempo: 10 minutos)
7.       Retorne para o centro do espaço. Leia o seu texto. Compartilhe com os outros. Estejam juntos. (Tempo: o que for necessário para compartilhar)

Bônus: pegue o livro Acorn. Sorteie uma página. Leia em voz alta. Experimente fazer a proposta na sua vida.
--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

texto usado na pesquisa sobre individualismo. história ponto de partida para o jogo: Os Mujicks de Anton Tchecov. turma de sábado com dissidentes do grupo QUE SEJA.
Os Ninguéns
As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns em deixar a pobreza; que em algum dia mágico a sorte chova de repente, que chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.

Os ninguéns: os filhos de ninguéns, os donos de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos.
Que não são, embora sejam.
Que não falam idioma, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não têm cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na História Universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.

Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.




(Eduardo Galeano  - O livro dos abraços, tradução de Eric Nepomuceno)

Marcadores: , , , , , ,

domingo, 23 de novembro de 2014

Culturas tradicionais brasileiras e o Programa Vocacional Novas ferramentas para criação e ação social.


Culturas tradicionais brasileiras e o Programa Vocacional
Novas ferramentas para criação e ação social.

                                   Por Andrea Soares (Andrea Costa Soares)



“As culturas devem aprender umas com as outras, e a orgulhosa cultura ocidental, que se colocou como cultura docente, deve tornar-se também uma cultura aprendiz. Compreender é também reaprender constantemente.” (MORIN, 1999, pp. 108 e 109)

Após três anos de intensos processos ligados ao Vocacional Dança e dois anos de afastamento do Programa em busca de uma organização teórica sobre minha pesquisa artística, voltei a atuar como Artista Orientadora em 2014 com muitas conexões feitas e com o desejo de costurar pontos da pesquisa com a realidade do Programa.
Na primeira reunião pedagógica de 2014, e agora sem bem saber por que caminhos instaurou-se o comentário, falou-se sobre manifestações tradicionais da cultura brasileira e, em meio ao debate, surgiu a frase “é que para eles a arte é a vida mesma”. Tal afirmação encaixou-se no constatado por mim em anos de pesquisas de campo. Algumas com focos bem definidos e objetivos previamente planejados, outras apenas pela alegria de poder partilhar deste “estado de arte” latente em boa parte destas comunidades.
Naquele momento, e já sabendo da oportunidade de propor ao Programa ensaios teóricos que se relacionassem com o nosso universo de trabalho, vislumbrei uma ponte que, de alguma forma, talvez já tivesse me visitado a mente, mas não de maneira tão clara: se a arte, para estas comunidades, é a vida mesma, isto só é possível porque a arte, enquanto fruto da capacidade criadora, é inerente ao ser humano. Qualquer ser humano!
Esta reflexão, por si só, já se coloca como uma costura com o Programa Vocacional, por estar na base de seus princípios a crença de que todo ser humano é capaz de expressar-se através da arte, em suas múltiplas formas de expressão.
Mas, indo mais fundo na reflexão, deparei-me com mais uma ponte entre a cultura tradicional brasileira, a criação contemporânea e os processos em sala de aula, conexões que venho experimentando há muitos anos, em diferentes contextos sociais e profissionais. Olhando para os públicos que o Programa Vocacional atende percebemos que há, nestes universos, muitas complexidades: diferentes gêneros, faixas etárias, classes sociais, etnias, que se misturam e multiplicam em desejos expressivos diferentes. Some-se a isto a relação que se estabelece com as peculiaridades de cada região dentro da cidade de São Paulo. São muitos mundos dentro de uma mesma cidade... Mas da raiz destes mundos vem a mesma seiva que nos faz brasileiros, ricos pela mistura que somos, que não é única, mas é díspar de qualquer outro povo.
Compreender esta mistura, e como ela reverbera na nossa forma de nos entendermos como “ser” no mundo, é um elemento fundamental no estabelecimento das relações horizontais entre Artistas Orientadores e Artistas Vocacionados. Neste sentido, o princípio do “Mestre Ignorante” (Rancière, 2007) amplia-se para um olhar crítico para nossa cultura ocidental, base primeira de nossa educação e, em muitos casos, única na nossa formação estética e também na nossa maneira de olhar a cultura como um todo. Perspectivas de uma educação calcada nos valores greco-romanos que se coloca hierarquicamente acima no diálogo que estabelece com as culturas populares, tradicionais ou não.
Segundo o princípio do Mestre Ignorante, a construção de processos criativos são fruto da colaboração de ambas as partes envolvidas na busca da construção de um conhecimento comum. Neste sentido tais processos passam obrigatoriamente pela transformação do olhar dos envolvidos, e pelo refinamento crítico embasado na contextualização dos universos em jogo, colocando a questão do “gosto” com algo intrínseco a este contexto. Nesse sentido, o contato com comunidades tradicionais nos ensina que há muitas belezas que escapam ao padrão estético ocidental, mas podem dialogar com ele, propondo novos horizontes para a criação e apreciação.
Aberta esta via de comunicação, estas manifestações tradicionais podem servir-nos como inspiração em múltiplos âmbitos, a partir de sua relação com os princípios e objetivos do Programa Vocacional. Em seu sítio virtual, Blog da Divisão de Formação Artística e Cultural o Vocacional define-se da seguinte forma::

“O Programa Vocacional tem como objetivo a instauração de processos criativos emancipatórios por meio de práticas artístico-pedagógicas. Nesse contexto, abrem possibilidades de o indivíduo se tornar sujeito de seus próprios atos e seus próprios percursos. Para tanto, essas práticas artístico-pedagógicas buscam a apropriação dos meios e dos modos de produção ao instaurar novas formas de convivência, territórios de aprendizado e de transformação mútua.”

            Partindo deste objetivo principal, destrincho algumas relações possíveis entre processos artísticos deflagradores de autonomia e emancipação e a cultura popular tradicional brasileira chamando atenção para os vários brasis que habitam a cidade de São Paulo, em suas mais diversas regiões e classes sociais.
            O processo de migração para São Paulo deu-se, em sua maioria, numa condição que subjuga os migrantes ao sistema que move a cidade em todos os seus âmbitos: econômico, cultural, social, etc. Para aqueles que chegam, é preciso adaptar-se rapidamente para garantir seu espaço mínimo de sobrevivência, mesmo que isso signifique abrir mão de muitas coisas, entre elas o seu passado, seus costumes, suas crenças.
            Após 13 anos atuando em São Paulo como arte educadora social nas linguagens de teatro e dança, e disseminadora dos conhecimentos colhidos junto a comunidades tradicionais do Brasil, não foram poucas as vezes que observei o processo transformador de jovens e adultos em sala de aula, partindo da “vergonha” de sua herança cultural em direção ao orgulho de descobrir-se herdeiro de um legado que seus pais e suas outras relações sociais omitiram ou precisaram esquecer para recolocarem-se socialmente na “nova vida”.
Também foram igualmente belos os resgates sociais deflagrados a partir da reverberação dos processos vividos em sala de aula e levados aos seus outros ciclos sociais, fazendo que familiares destes alunos revelassem aos mesmos o percurso vivido antes deste “esquecimento defensivo”.
            O fato é que, como disse Patrick Sériot:

“O país é a cultura. A cultura são as tradições e o respeito que nós devemos ter em relação a ela, e não unicamente à cultura do momento presente. Sem conhecer a cultura de uma sociedade, torna-se impossível de nela educar um homem tendo consciência de sua própria dignidade, tendo respeito por si próprio, seu país e seu povo. O respeito dos outros supõe em primeiro lugar o respeito por si próprio, e por consequência, o conhecimento de si, de seu povo e de seu próprio passado.” (TRUBACEV, in SÉRIOT, 1999, p. 34)

            Sendo o Brasil um país vasto geográfica e culturalmente, esse sentimento de pertencimento é algo bastante complexo. Identificamo-nos, sim, enquanto brasileiros, mesmo desconhecendo muito do que nos foi dado enquanto legado cultural. Muito do nosso gosto, dos nossos costumes cotidianos, práticas culturais entranhadas em nós são fruto de uma reorganização em vários âmbitos destas heranças culturais que desconhecemos e desconsideramos, despotencializando nosso estar no mundo, enquanto subjetividade, coletividade e enquanto sociedade civil. Enquanto Nação.
            A partir desta constatação, organizo a relevância da interação com as culturas populares tradicionais brasileiras em dois grandes âmbitos: o político e o estético, considerando-se aqui como político tudo que concerne à vida das pessoas em sociedade, atuando umas sobre as outras a partir de seus próprios atos.
            A construção da autonomia do indivíduo, no sentido de muni-lo de ferramentas para a cidadania e para a ética, passa necessariamente pelo autoconhecimento e pelo reconhecimento de seus valores, construídos com base na alteridade. Porém, na sociedade em que vivemos a hierarquização de valores culturais, étnicos, de gênero, etc. age de forma opressora contra alguns cidadãos, fazendo com que os mesmos se sintam diminuídos por sua condição, ou mesmo com que neguem ou não se reconheçam na mesma.
            Ao longo do tempo, estas “contenções” em torno de sua subjetividade, ou mesmo o sentimento de desencaixe dentro desta ordem rotuladora pré-estabelecida, geram choques sociais de incompreensão mútua (MORIN, 1999) e uma despotencialização social e criativa. Muitas vezes, existir passa a ser um simples estar, sem desejos, sem esperanças, sem horizontes.
            Nesse sentido, para além da identificação com matrizes culturais e étnicas, as manifestações artísticas da cultura tradicional brasileira, em especial as espetaculares, servem a programas como o Vocacional porque são fruto da necessidade de suas comunidades originais de interagirem socialmente; de vivenciar o lazer; de expressar e refletir sobre questões cotidianas; de viver arte. E isto faz com que sua própria estrutura, forma e aprendizado privilegiem a construção coletiva.
            O aprendizado por observação e repetição, a construção de estruturas uníssonas de movimento; a ocupação espacial orientada para o coletivo; o jogo; a ludicidade são características que, mesmo reforçando a interação grupal, está a serviço da alteridade quando permite que cada indivíduo seja, a sua maneira e subjetividade, parte de uma engrenagem maior que se move a partir da presença de todos.
            Com uma pesquisa séria, onde a contextualização destas manifestações e sua fundamentação estejam claras para o artista-orientador, elas podem se transformar em matéria prima para procedimentos disparadores ou consolidadores de processos criativos e de (re)construção de autonomias. A construção destes procedimentos a partir das necessidades identificadas pelo artista-orientador – e não a simples transposição de passos, músicas, gestos, brincadeiras, etc. – amalgama as relações apontadas como favoráveis a construção de um conhecimento crítico, de acordo com o que defende Paulo Freire (FREIRE, 2011) para a construção da autonomia, tornando-se uma ferramenta potente para os objetivos do Programa Vocacional.
Ao olharmos para estas culturas populares tradicionais brasileiras sob o enfoque estético, desvencilhados das amarras que nos limitam a apreciação, podemos, também, identificar preciosas ferramentas para o trabalho criativo junto a grupos vocacionados.
Estas ‘amarras’ são, na verdade, rótulos e formatos estéticos que reconhecemos como padrões “oficiais” ou “normais” de criação em arte, construídos a partir das referências etnocêntricas, guiadas em sua maioria pela cultura ocidental greco-romana ou por outras culturas já assimiladas por esta, muitas vezes de forma pasteurizada e descontextualizada, como é o caso de algumas culturas orientais, ou mesmo da arte africana.
Neste sentido, também o papel do artista-orientador é fundamental no que se refere à pesquisa, pois depende de seu olhar a forma com que estas culturas chegarão aos seus vocacionados, produzindo uma ampliação de horizontes estéticos, ou, por outro lado, perpetuando visões hierarquizantes e preconceituosas com relação a estas culturas e sua produção artística.
            O fato é que, apesar de elas ocuparem, no senso comum, um lugar de “coisa do passado”, de “folclore”, muitas vezes estas culturas e sua produção artística se aproximam muito do que para nós, artistas ditos “contemporâneos”, é vanguarda. Isso pode ser especialmente observado quando pensamos nas artes do espetáculo.
            Quando nos debruçamos na produção cênica contemporânea percebemos que ela tem apresentado em sua busca algumas características que podem ser identificadas nas manifestações espetaculares tradicionais brasileiras de forma espontânea. Ou seja, sem que tenham sido fruto de uma especulação prévia em trono da forma ou do conteúdo, mas, talvez, pela necessidade mesma de agregar a comunidade em torno daquela vivência artística.
Nesta confluência com a produção cênica contemporânea, podemos observar como características comuns: a interação entre expressões artísticas – dança, teatro, música, artes visuais – e a dissolução de fronteiras entre elas; a estreita relação entre artistas e público, incluindo a possibilidade de interação direta entre ambos; a utilização do espaço público ou alternativo como local para a cena e a diversidade em relação a esta utilização; as fronteiras tênues entre vida e arte para os artistas.
            Na verdade, se pensarmos sob um enfoque histórico-cronológico, facilmente perceberemos que, mesmo sem comumente darmos à tradição estes créditos, estas formas espetaculares já existiam em culturas tradicionais de diversos lugares do mundo bem antes de catalogarmos as expressões artística como fazemos atualmente.
Isso também nos faz pensar que, em sua origem, estas manifestações não estão necessariamente encaixadas nestes rótulos prévios, construídos a partir daquele pressuposto estético ocidental. Sendo tantas expressões artísticas numa mesma cena, elas não podem ser definidas em sua totalidade como nenhuma delas.
Ao mesmo tempo, por carregarem em seu âmago a essência de nossas matrizes étnicas, estas manifestações atuam como um eco longínquo, que reverbera dentro de nós a cada vez que as vivenciamos, quase sempre de forma crescente, retroalimentando uma “intimidade” estética com aquele universo que, num primeiro momento, nos parece tão díspar e estranho.
A combinação entre estes dois perfis – político e estético – na utilização destas referências da cultura tradicional como ferramenta na construção de processos criativos emancipatórios traz ainda outra vantagem: a originalidade destes processos.
A vastidão de culturas, práticas, musicas, gestos, saberes, movimentos, mitos, etc., contidos em nossa cultura nos permite tecer combinações múltiplas entre forma e conteúdo, capazes de gerar estados de presença potentes diante do público que, assistindo às criações, poderá acessar estas camadas adormecidas de ancestralidade soterrada por padrões estéticos corriqueiros.
A tarefa, portanto, parte do artista-orientador, no sentido de que são seu norte, perspicácia e inventividade os motores mínimos necessários para provocar os vocacionados, fazê-los desvelar suas conexões sócio-antropológicas, e munir-se das mesmas como ferramenta de proposição para uma cena outra, que paira entre as necessidades expressivas do agora, e a força expressiva deste legado ancestral, atingindo o público e – idealmente – gerando alguma reflexão sobre estas conexões que se estabelecem entre cidadania e arte.
           
REFERÊNCIAS

DIVISÃO DE FORMAÇÃO ARTÍSTIFCA E CULTURAL. Vocacional. Publicado em: http://formacaoartecultura.blogspot.com.br/p/programa-vocacional.html Consultado em  27/10/2014.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Ed. Paz e Terra, 2011.
MORIN, Edgar. Os sete saberes para a educação.  Lisboa: Instituto Piaget, 1999.
RIBEIRO, D. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Cia. das Letras, 1995.
SÉRIOT, Patrick. Anamnésia da língua russa e  a busca de identidade na Rússia. In, INDURSKY, Freda; FERREIRA, Maria Cristina Leandro (org).  Os múltiplos territórios da análise do discurso. Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 1999.
RANCIÈRE, Jacques. O mestre ignorante: cinco lições sobre a emancipação intelectual. Belo Horizonte: Ed. Autênica, 2004.


Marcadores: , , , , , ,

sábado, 22 de novembro de 2014

UM COMEÇO


Ensaio de Pesquisa Ação do Programa Dança Vocacional no Ceu Butantã
Artista Orientadora: Mariana Costa


Um início. A sensação de começar permeou todo o processo deste meu primeiro ano como artista-orientadora no Dança Vocacional. Assim como quando começamos uma criação, seja um texto, uma peça de dança ou um desenho, tudo está nebuloso, temos muitas ideias, desejos e dúvidas e não sabemos como começar a colocar no papel todo o turbilhão. E enfim, quando começamos, vemos que muitos destes desejos e ideias já estão presentes. Toda a vivência deste ano no vocacional foi muito potente, me provocou, questionou, desestabilizou, permitindo que eu crescesse muito como artista e arte-educadora.
É bem difícil elaborar e concluir o ensaio de pesquisa neste momento: estou nos últimos encontros com os vocacionados, concluindo nosso processo de criação para apresentação na Mostra do Dança Vocacional no Ceu Butantã no dia 15/11. Escrevo este texto no meio deste furacão que é o nascimento de uma criação, concluindo o processo vivido com os vocacionados durante todo o ano, sabendo que nunca se chega exatamente a um fim. Assim escrevo este texto de modo borbulhante, e talvez menos claro do que se o elaborasse daqui um mês, quando teria um distanciamento maior da experiência.
O que mais me moveu neste projeto este ano foi o engajamento dos meus artistas vocacionados com o nosso processo de criação. Vivencio com eles uma troca frutífera, na qual uma postura compromissada e dedicada ecoa em todos do grupo, composto por jovens de 14 a 20 anos, que me estimulam muito como artista-orientadora.
Em nossos encontros pude oferecer, além de técnicas e procedimentos da dança contemporânea, uma orientação do processo de criação em dança. Procurei desenvolver com eles algo que foi fundamental na minha formação como artista: incentivar/estimular o vocacionado a procurar informações que ampliem o seu repertório e orientá-lo em sua criação artística a partir de todas suas ideias e desejos. Ou seja, contribuir em sua emancipação como artista.
Nos primeiros encontros, no início do ano, o grupo tinha uma preocupação demasiada com o produto final, não valorizando o processo, o trabalho corporal, os procedimentos em dança, etc. Estavam mais preocupados em criar uma coreografia para a mostra e com os temas que gostariam de tratar. Ao longo do ano aprofundaram o contato com o próprio corpo, a partir de diferentes práticas, experimentando uma série de possibilidades em dança. Assim, ao longo do projeto, eles foram construindo juntos um produto que resulta do próprio processo que vivenciaram.
A criação que está sendo desenvolvida foi elaborada principalmente por eles mesmos a partir dos encontros, é composta por coreografias e com improvisações e composições criadas em tempo real. Todo o trabalho vem sido construído por eles e percebo que meu papel, ultrapassa o de trazer informações, se tornando cada vez mais, o de auxiliá-los na organização do material que eles mesmos trazem.
Quando começamos a pensar juntos o que eles gostariam de apresentar, uma vocacionada trouxe um trabalho que ela fez sobre fotografia de conflito, pois disse que o mesmo lembrava as composições que estávamos fazendo em nossos encontros. Ela apresentou para o grupo as fotos de Sebastião Salgado, principalmente as de Serra Negra. As fotos provocaram uma reflexão do grupo sobre a realidade que vivem: o racismo, a desigualdade social, machismo, entre outros, resultando na escolha das mesmas como inspiração de grande parte da criação coreográfica para a mostra final.
As fotos e a temática também estimularam a criação de um texto escrito pelos vocacionados (vide final do ensaio). Também criaram um vídeo, a ser veiculado na mostra, composto pelas fotos do Sebastião Salgado e por vozes em off  dos vocacionados recitando o texto desenvolvido.
Os vocacionados do Ceu Butantã participaram de várias ações culturais promovidas pela minha equipe, centro-oeste, e acredito que estas vivencias contribuíram muito para o seu crescimento e por todo seu engajamento. Uma destas ações foi o ciclo de seminários elaborado pela nossa equipe, coordenado por Yaskara Manzini, que contribuiu muito para refletir tanto sobre a dança em São Paulo no momento atual bem como sobre o dança vocacional, me enriquecendo e me auxiliando como artista-orientadora. Seria interessante se um maior número de vocacionados e artistas-orientadores e coordenadores das outras equipes pudessem ter participado mais destes encontros.
Ao longo do ano criei dois grupos no facebook. O primeiro “Dança Vocacional no CEU Butantã 2014!”[1] foi criado em junho e tinha como objetivo, além da divulgação, um espaço de trocas de referências para dança e para darmos continuidade a pesquisa além dos encontros no equipamento. O grupo foi se tornando uma ferramenta importante para todo o processo de criação com os vocacionados assíduos, de modo que criei em setembro um segundo grupo (este fechado inicialmente), intitulado “PROCESSO DE CRIAÇÃO_Dança Vocacional Butantã 2014” [2] para que eles pudessem trocar mais, postando vídeos e fotos de ensaios, reflexões, croquis das criações, entre outras informações importantes para a reflexão e escolhas sobre o processo de criação.
Enfim, este ano foi um gratificante começar: tanto para mim como artista-orientadora no vocacional como para os vocacionados, pois para a maioria deles foi o primeiro contato com a dança.
Segue abaixo o texto desenvolvido pelos vocacionados Bruna da Silva Ferreira de Andrade; Emelly da Silva Visgueiro Gomes; Marcos Paulo de S. Dias; Thainan Souza Silva e Vinicius Ruivo da Costa:

“UM DOCE OLHAR SOBRE A SERRA

Susto
olhar inseguro, de medo e vontade
como anda a ganância naquela região nordestina
sem água para beber
sem sofrer, sofrer por nada
gosto de barro pelo sangue derramado
derrotado de tanto cavar algo que é valioso
algo doce
o olhar triste da menina
onde todos os olhos da serra eram voltados para baixo
vemos aqueles acima que mandam nas pessoas

Coragem, olhar e vontade
gosto é a busca pelo ouro
pego através de uma luta
pela busca de uma riqueza natural
amarelo como o sol
que fica sobre as pessoas que trabalham
duro fotografar a situação das pessoas
mostrando a dança que está em seu coração
uma sensação de satisfação
procurar a felicidade na serra
é uma dança criada pelas
pessoas com vontade de conquistar algo”


E o vídeo realizado pela vocacionada Thainan Souza Silva que será projetado no trabalho realizado por eles: www.facebook.com/video.php?v=10204129970383605&set=o.284609838395666&type=3&theater



[1] “Dança Vocacional no CEU Butantã 2014!”: www.facebook.com/groups/dancavocacionalceubut2014/
[2] “PROCESSO DE CRIAÇÃO_Dança Vocacional Butantã 2014”: www.facebook.com/groups/284609838395666

Marcadores: ,