domingo, 30 de novembro de 2014

Isso não é um ensaio

Isso não é um ensaio.
                                                                                                                         A.O Verônica Mello
Veronica Pereira Pinto
equipamento: Tendal da Lapa
equipe Centro  Oeste

Nasci para administrar o à-toa
o em vão
 
o inútil.
Pertenço de fazer imagens. 
Opero por semelhanças.
 
Retiro semelhanças de pessoas com árvores
 
de pessoas com rãs
 
de pessoas com pedras
 
etc etc.
Retiro semelhanças de árvores comigo. 
Não tenho habilidade pra clarezas.
 
Preciso de obter sabedoria vegetal.
 

(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã no talo.)
 

E quando esteja apropriado para pedra, terei também
 
sabedoria mineral.

Manoel de Barros

Aqui começo destruindo meus escritos. Desistindo de escrever algo para outro. Desistindo de escrever um ensaio. Afinal, quem vai ler? A quem interessa isso? Eu não sei escrever ensaio. Portanto o destruo desde já. Se você veio aqui para ler algo organizado que esclareça como foi o ano de trabalho em 2014 no Tendal da Lapa, etc, etc. Pode dar a volta e buscar outros textos. Este não dá conta disso. Eu não dou conta disso.
Comecei escrevendo sobre o processo das turmas. Repetindo relatos feitos diversas vezes durante o ano. Sobre a demanda do Tendal da Lapa, sua característica de passagem que favorece a formação de núcleos que desejam mais estabilidade (já que todos só passam por lá e não se comprometem), sobre a lente de aumento dada nesse ano ao processo com procedimentos de criação, recriação e destruição de cenas-rascunhos trazendo o processo como foco aumentado da pesquisa. Pronto. E desisti de fazer isso. Vou publicar esses outros textos inacabados aqui no final desse não ensaio. Para quem estiver curioso e chegar até lá saiba: não se fecham. não terminam. não tem lógica.
Como este aqui que é mais um fluxo de pensamento-caótico. Eu não sei escrever ensaio. Então eu grito! Tem alguém aí do outro lado da linha? Estou sozinha? Estou só ao pensar que o processo vivido nesse tempo-espaço curto de menos de 8 meses não se prontifica a ser ensaiado aqui? Porque não cabe. Porque não dá pra medir. Porque não posso. Seria reduzir. Demais. Então eu falo! Destruo este ensaio. Retalho pontos escritos pelo tempo curto que tivemos. A quem interessa mesmo isso? Um projeto que deveria ser contínuo e se finda a cada ano deixando um vácuo de descontinuidade. Um projeto que poderia ser outra coisa. Se tivesse mais interesse público. Se fossemos escutados. Se tivéssemos voz. Eles – os vocacionados – encontram cada vez mais as vozes deles – dentro do espaço do encontro. Os processos são muito intensos. Nós vivemos lindamente momentos de crise, desistência, persistência, resistência artística e pessoal. Mas a quem interessa mesmo? A nós que vivemos isso. Sim. Leio pra vocês esse relato. Parceiros de caminhada. Talvez tenhamos tempo para isso...
Ensaiar. Todos os dias nós ensaiamos a possibilidade de criar velhas/novas estéticas. Novos desejos para falar. Falamos. Gritamos. Quando os barulhos do Tendal ressoam nas paredes isso se faz necessário. E vamos pra rua. Lá tem gente viva, querendo continuar morta. Temos que tentar olhar para elas. Tentar não morrer junto. Não sucumbir à rotina de estar sempre caminhando em direção a algo útil. Para quem? Plagio: Quero ser Inútil. Sempre quis. Vocês não precisam mais de mim para isso. Vocês já conseguem olhar para o outro e descobrir que podem reagir a algo. Falar com as paredes em frente ao mercado, ouvir um homem pedindo foco para sua história descabida ou se aproveitando do movimento para fugir da Polícia... fazendo fila ao contrário, criando imagens de revistas na praça, seguindo as pessoas como sombras, guiando-as cegas por um labirinto sensorial ou levantando as cegueiras delas num labirinto de conceitos, trazendo as doenças de vocês para que todos se lambuzem em anilina e mel, falando de uma Rússia Brasileira individualista, buscando formas de lidar com os espaços, levando o público a uma experiência sensorial com o tempo, questionando os dogmas religiosos e científicos, materializando algo subjetivo em nossa sociedade que vê a mulher como mercadoria e não assume em palavras. Rascunhos. Transformados. Recriados. Vocês já sabem por onde podem ir.
Seguem sem forma, os textos rabiscos que escrevi neste ano. Tive pouco tempo para palavras. Tive que tentar dar conta de demandas. Cinco núcleos. Uma orientadora... Todo o tempo foi para tentar criar redes. Veio o Cruck, que provocou nossas possibilidades de estar ali. Vimo-nos bloqueados por não desejos de relação. Vocacional Teatro isolado. Mas já somos muitos. Então seguimos. Num desejar estar junto quase impedido por tempos diferentes, trabalhos diferentes, estudos diferentes. O mundo útil toma conta da gente. Toma tempo da gente. Nos aprisiona. Mas continuamos resistindo. Provocando possibilidades de estar. Ali. Naquele tempo-espaço proposto. Tentando encontrar outros tempos possíveis. Ali...
Mas você que não está lendo isso pode estar pensando: essas despalavras passam assim como despropositadas por mim. Não me dizem nada. Não me alimentam, não existem. Assim são mesmo. Eu respondo sem medo de ser desentendida. Assim eu desescrevo o que me passa em pensamentos. Como pássaros, os pensamentos podem voar sem necessidade de amarras, gaiolas, prisões. Assim desensaio palavras pensamentos sobre o que foi. Para que você que não leu, possa entrar dentro de meu não tempo-ensaio, do meu inútil pensar, na minha ânsia por desobrigar, desmedir, desentender o que é imposto e surge sem vontade. Essa vontade que vai surgindo a fórceps a cada palavra sem sentido aqui escrita, pois essas palavras sem sentido, são em mim uma forma de desabafar os sentidos tomados nesse curto tempo em que estive junto a pessoas incríveis, a pessoas reais, a pessoas que fazem sentido, a pessoas que não cabem aqui.



Então vamos aos retalhos:

pensamentos soltos sobre o espaço Tendal da Lapa

trem
caminho de ida
e volta.

de onde vem?
o que desejam?
porque vem e voltam?
para onde partem?

o tempo ali parou. tudo continua sempre despencando. eternamente, as árvores crescem.

tudo de novo. caminhos recomeços. estação de trem, sons, espaços fechados abertos, sons, chão sujo, sons, barulho. uma legião de pessoas passam pela lapa e aquele espaço desconhecem. o que acontece ali? é o poupa tempo? chega, faz documento, sai? não. se precisar de algo rápido ali, vai ser difícil conseguir. tempo. ali parece que está parado. um tempo antigo passa ali. uma história em tijolos e paredes. minha história. história de muitos. desejos diversos. um lugar onde muitos passam. alguns ficam. ali acontece sempre muita coisa. hoje mais do que antes. hoje mais sons. hoje também mais barulhos. hoje mais grupos de teatro tentando fazer algo que os movam. iniciantes que passam e depois ficam. outros passam e não voltam mais. as pessoas não criam vínculos facilmente. eu tento. isso sempre me incomodou. incomoda muito. as pessoas marcam seu passos por onde passam e esquecem que outros esperam ansiosos o retorno. continuando... eu continuo... mais um ano. grupos antigos e turmas novas. muitas pessoas. cinco núcleos. uma a.o. – eu. de novo tenho que tentar dar conta do que não cabe em mim? mas são tão interessantes. interessados. evolvidos. desejosos de estar lá. quase moram no sábado. me interessa também. estar ali em relação. mas como fazer?
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AUTORRETRATO
Manoel de Barros

Ao nascer eu não estava acordado, de forma que
não vi a hora.
Isso faz tempo.
Foi na beira de um rio.
Depois eu já morri 14 vezes.
Só falta a última.
Escrevi 14 livros.
E deles estou livrado.
São todos repetições do primeiro.
(Posso fingir de outro, mas não posso fugir de mim).
Já plantei dezoito árvores, mas pode que só quatro.
Em pensamento e palavras namorei noventa moças,
mas pode que nove.
Produzi desobjectos, 35, mas pode que onze.
Cito os mais bolinados: um alicate cremoso, um
abridor de amanhecer, uma fivela de prender silêncios,
um prego que farfalha, um parafuso de veludo, etc. etc.
Tenho uma confissão: noventa por cento do que
escrevo é invenção; só dez por cento que é mentira.
Quero morrer no barranco de um rio: - sem moscas
na boca descampada.
Autorretrato

retrato de uma pessoa feito por ela própria.
                   tirar o retrato a
         fotografar
fazer a pintura de
                   representar ou descrever com exatidão
                                                        deixar transparecer, revelar
espelhar-se – patentear-se – reproduzir-se

Com o intuito de conhecer-nos um pouco mais, cada um dos vocacionados estão criando seus autorretratos.
Com foco na relação O QUE X COMO,  cada um despe-se de um detalhe de si, de algo oculto, ou de algo falso.
Uma relação sutil entre verdade e mentira. Real e imaginário. Eu me vejo como desejo.

         Um segundo passo: em grupo. O que querem retratar? Surgem os rascunhos. Possibilidades de processo vivo. Exposto. A cada momento podendo se transformar. Se redesenhar.
um projeto de rascunhar, rabiscar cenas. ou como pesquisar desfazendo certezas.

começamos com a ideia de autorretrato. objetivo simples: conhecer quem eram as pessoas que ali estavam. o que desejavam? arriscamos esse caminho e por ele fomos. um depois do outro se seguiram. deles o desejo de saber: o que o coletivo gostaria de retratar. continuamos. passos para cenas mais coletivas. ali nos arriscamos assim: cada um traria novas camadas de tintas / presentes para o outro grupo. cada grupo passaria a redesenhar seu rascunho de pesquisa e assim fomos. rascunhando.
o processo como foco aguçado. o processo como resultado diário. a se apresentar e jogar fora se desejar. ou a aprofundar de o rio pedir um mergulho.
temas que se partiram os rascunhos:

Uma mulher se olha no espelho.
Quem é ela?
O que o espelho mostra?
O que ela sente?
O que ela vê?
O espelho mente?
Ela não quer ser como é.
Mas o espelho insiste. Continuado. Ali parado. Mostra sua face.
Ela é assim? Tem que ser? Sempre?
Dizem que o espelho guarda a alma de quem se mira.
A alma do espelho...
A dela está perdida.
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tempo. na cidade. ele nos devora. come cegamente. ele nos alimenta, nos mantém vivos até que ele deseje terminar com tudo. ele nos sufoca se entramos nos redemoinhos relógios que nos aprisionam.

Quem é você? Escravo do tempo? Um tempo em movimento?
Cada um poderia responder como quisesse. A resposta é um fato inventado.
A inspiração da invenção poderia se uma verdade ou uma imaginação.
Mas o tempo parece aprisionar. Prender. Agarrar.
Ele insiste em existir.
tic tac. tic tac.
Como um coraçãozinho preso ao pulso o tempo continua.
Eu ali continuado.
tic tac. tic tac.
Existindo.
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é um homem ou um macaco?
controlado por um deus – oniprepotente – um homem
é um homem ou um macaco?
um anjo que se repete a soar – um macaco.
é um homem ou um macaco?
controlado continua a obedecer.
o que importa? ele é controlado. Ele segue.
Como máquina.
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PROGRAMA
autorretrato no espaço.
ou dando um espaço para ser.
1.       Encontrar um lugar no espaço. Encontrar um espaço no lugar. Encontrar você no espaço. Encontrar um espaço em você. (Tempo: até todos chegarem no espaço escolhido)
2.       Escolher uma folha, uma cor, uma imagem, um desejo, um amor, uma dor e desenhar seu autorretrato. Escrever seu autorretrato, olhar e ler seu autorretrato. (Tempo: 15 minutos)




trecho do livro Acorn de Yoko Ono  para inspiração

3.       Escolher um lugar onde seu autorretrato possa ser colocado, instalado. (Tempo: necessário para achar o lugar e voltar para o centro do espaço e encontrar as outras pessoas)
4.       Caminhar pelo espaço. Observar as pessoas. Cada um. (Tempo: necessário para ver todos algumas vezes)
5.       Caminhar pelo espaço. Observar os autorretratos dos outros. Escolher um que não seja seu. (Tempo: necessário para escolher)
6.       Inspire-se nele. Sinta-se como ele. Invente quem é ele. Faça o autorretrato dele em palavras. (Tempo: 10 minutos)
7.       Retorne para o centro do espaço. Leia o seu texto. Compartilhe com os outros. Estejam juntos. (Tempo: o que for necessário para compartilhar)

Bônus: pegue o livro Acorn. Sorteie uma página. Leia em voz alta. Experimente fazer a proposta na sua vida.
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texto usado na pesquisa sobre individualismo. história ponto de partida para o jogo: Os Mujicks de Anton Tchecov. turma de sábado com dissidentes do grupo QUE SEJA.
Os Ninguéns
As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns em deixar a pobreza; que em algum dia mágico a sorte chova de repente, que chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.

Os ninguéns: os filhos de ninguéns, os donos de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos.
Que não são, embora sejam.
Que não falam idioma, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não têm cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na História Universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.

Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.




(Eduardo Galeano  - O livro dos abraços, tradução de Eric Nepomuceno)

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O lugar do hífen

Por Murilo De Paula (Artista Orientador no CEU Curuça - Leste 4 - Teatro) Denis Guénoun escreve seu livro “O teatro é necessário?” a partir de uma indagação que poderia ser resumida assim: por que cada vez mais pessoas procuram fazer teatro, quando simultaneamente o número de espectadores é decrescente? O autor busca investigar esta paradoxal desproporção e compreender quais são os agentes que a produzem. Logo na introdução ele cita como o fazer teatral se expandiu e entre os tantos espaços que ocupou estão “os bairros ditos em ‘situação de risco social’ ou conflagrados”. Falando de uma realidade da França nos anos 70, este aumento expressivo de fazedores de teatro e decréscimo do público diz também muito de uma realidade que podemos observar no Brasil nestas últimas décadas com a criação de diversas faculdades e cursos técnicos de artes cênicas e da atuação de projetos culturais desenvolvidos nas periferias. O programa vocacional realizado em todas as regiões do município de São Paulo ocupa principalmente os espaços culturais públicos da periferia e tem por cerne de seu projeto artístico pedagógico a instauração de processos criativos emancipatórios. Neste parágrafo está posta direta e indiretamente uma complexa problemática que não posso ignorar como ponto de partida ou de frequentes retornos ao olhar para os processos vivenciados nas orientações deste ano e observar os que chegam ao programa vocacional (este já em seu eterno recomeço) e os que mantém uma relação de anos com o projeto e que de um determinado ponto de vista tem muito mais a dizer sobre o programa do que eu mesmo nestes dois anos como artista orientador. De minha breve experiência no programa posso ressaltar que os encontros são diversos e que exigem uma postura muito flexível do artista orientador na compreensão das especificidades de cada espaço, turmas e grupos orientados. Processo muito dificultado pela tão debatida sazonalidade do programa, um dos seus poucos aspectos permanentes e que nos coloca sempre na árdua tarefa de formar novas turmas, entender as dinâmicas de trabalho dos grupos já formados e ir descobrindo as potencialidades e caminhos para que as práticas criativas sejam efetivamente compartilhadas entre os vocacionados e entre vocacionados e Aos. Ao iniciar as orientações deste ano, já em meados de abril, o primeiro contato que tive com os vocacionados foi através das fichas de inscrição dos anos anteriores. Sempre me atento para o item em que o inscrito deve apresentar o motivo pelo qual procurou o programa, algumas respostas frequentes são: para perder a timidez, fiz/assisti uma peça na escola/igreja e gostei, para me descobrir, amo o teatro, quero ser ator e fazer tv, sempre tive vontade de fazer teatro. As respostas revelam em geral que quem procura por um “curso” de teatro tem uma ideia muito vaga sobre o que seja essa prática e trazem um referencial muito associado a TV e a representação e ao ator como alguém extrovertido. No entanto, iniciadas as atividades, a experiência em grupo, os jogos, a ampliação do imaginário de que teatro é somente representar os personagens de um texto decorado, parecem criar um campo ora de tensão, ora de liberdade. Ao lidar com esses que chegam ao programa, e que vão chegando durante todo o ano, e que têm poucas referências propriamente “teatrais” (muitos sequer assistiram espetáculos) me vejo como o hífen dos binômios orientador-professor, encontro-aula, processo-obra, grupo-turma. Orientar na linguagem cênica uma turma que não a “conhece”, sem no entanto, imprimir-lhe uma estética determinada por sua própria experiência artística é um instigante desafio. Descobrir junto à turma possibilidades criativas, em que a compreensão da linguagem não se dá a priori à experiência, mas que a experiência desvele formas e que essas formas indagadas sejam desdobradas em outros possíveis. Quanto a orientar um grupo, hipoteticamente, me parece um lugar mais fácil de compreender, uma vez que entendemos que um grupo já tem algum domínio da linguagem e alguns desejos quanto ao caminho que gostariam de trilhar. No entanto ao olhar para os grupos formados dentro do programa vocacional, algumas questões me surgem como embriões distantes de respostas. Algumas delas são: as inscrições no vocacional apresentam duas possibilidades, turma ou grupo, essa divisão restringe outras formas de encontro? Quando passamos a ser um grupo? (Pergunta de um vocacionado) Nomear-se grupo significa ser um grupo? Quando um grupo deixa de sê-lo? Quando um grupo formado pelo vocacional mantêm uma produção artística, que respaldo poderíamos dar? O que eles fazem com essa produção? Ou o que fazer com os grupos “emancipados”? Observando os grupos formados dentro do programa vocacional e suas produções, é possível dizer que há um certo perfil determinado pelas premissas e estrutura do próprio programa? São muitas questões que talvez pudesse chegar algumas respostas a partir de um estudo mais abrangente, analisando diversos grupos, regiões etc Mas alguma coisa apreendi do encontro com os dois grupos que orientei no vocacional, ambos me colocaram em xeque sobre o papel do orientador. Orientei o grupo “Identidade oculta” no ano de 2012, na verdade parte do grupo, o que era uma problemática, pois era uma orientação a duas integrantes do grupo que ainda consideravam importante a parceria com o programa, enquanto os outros já haviam decidido rompê-la, na época o grupo tinha recém inaugurado sua sede e mantinha uma produção, inclusive contemplada pelo VAI. Por serem só duas vocacionadas, ausências e a própria dinâmica paralela do grupo impediam um fluxo nas orientações, o que me fez propor que abríssemos o trabalho a outras pessoas interessadas, não alterando o foco de investigação definidos por elas, seria então nem grupo nem turma, mas um “núcleo de estudo”. Este ano ao orientar o Grupo Opus a problemática foi outra, também nascido do programa vocacional, o grupo tem hoje 7 anos e de seus 7 integrantes somente três continuam. Desses três, um só pode ir a cada quinze dias. A (des)configuração do grupo, após o afastamento dos demais integrantes pelos mais diversos motivos (trabalho, estudo, etc) deixou-os num dilema. Durante os últimos dois anos vinham produzindo um espetáculo, um dos atores estava escrevendo o texto. O material dramatúrgico inconcluso já era bastante extenso, apesar de muito interessante, em relação ao curto tempo de encontro de que dispõem semanalmente, o projeto de montar o texto tinha se tornado inatingível e desmotivador. Os ensaios estavam dispersos, pois tinham perdido a integrante que se responsabilizava pela organização dos ensaios, trabalho corporal, improvisações etc. Enfim, tinham perdido o domínio dos meios e modos de produção. Desconfiavam do motivo porque ainda continuavam se encontrando e se sentiam nostálgicos em relação a outro período do grupo. Eu não conseguia entender o que os mantinha juntos, para além do desejo de estarem juntos, de se encontrarem para conversar, de debaterem temas de grande importância ou banais, e realizarem breves improvisações com o material. Pensei se esse encontro precisaria acontecer dentro do espaço do vocacional, se seria possível fora do espaço do CEU, e o que propor. Não sem o auxílio dos companheiros de equipe, que tanto têm sido importantes na busca por perspectivas artístico-pedagógicas, cheguei enfim numa proposição que movesse o grupo: a cada mês deveriam escolher um material a ser trabalhado; pensar na sua realização desde a organização do ensaio, dos materiais necessários etc; apresenta-lo publicamente no último final de semana do mês. O objetivo era que ao optar por pequenos experimentos cênicos eles pudessem retomar o domínio de seus modos e meios de produção condizentes às suas presentes condições. Que pudessem centrar o trabalho em objetivos mais simples afim de realiza-los integralmente e o mínimo de profundidade na relação com o material. A estratégia foi fundamental para o grupo pudesse aceitar sua atual condição, entender que o grupo não era mais formado por sete atores e repensar o sentido deste breve encontro aos sábados. As apresentações ao fim de cada mês promoveram o encontro entre equipamentos e certa satisfação do grupo, mas não foi capaz de resolver a questão central desses artistas, de que o seu fazer não constitui um grupo. A pergunta que me faço rigorosamente é o que eu como artista orientador compreendo por grupo, se meu olhar não estaria viciado a entender grupo de uma determinada perspectiva que não incluiria outras formas de se organizar. Perguntar-me isso ampliou meu imaginário sobre possíveis desdobramentos de uma ideia de grupo e pensar que se por um lado a estrutura do vocacional nos aprisiona e nos deixa impotentes, por outro nos dá muita liberdade de experimentação. Poderíamos pensar que para além de turmas e grupos outras formas de encontros coletivos entre orientadores e vocacionados podem ser estabelecidos provocando novas formas de experiência criativas? Outra reflexão a partir da observação do Opus é que um grupo talvez deixe de sê-lo, a partir do momento que o desejo de sustentar a imagem de um coletivo torna-se justamente o empecilho para que os artistas envolvidos sejam capazes de agir coletivamente, ou de encontrar outras parcerias, outros fazeres e formas de organização. Ao final do processo me vejo diante de duas realidades: uma turma em que parte dos vocacionados se destacam por sua capacidade de organização coletiva e um grupo com uma trajetória artística interessante, mas que não consegue mais se organizarem como coletivo. Nos dois casos lido com o entre “grupo-turma”, outro binômio para a coleção. Outro espaço entre que como orientador me vejo na função de cavoucar, habitar e tencionar. Estou certo que grupo e turma não são as duas únicas possibilidades dentro desse programa, mas não sei se é possível nomear outras possibilidades senão no contato com cada realidade específica. Para os japoneses há uma palavra para designar o espaço vazio entre dois corpos, seres ou acontecimentos: Ma, traduzido em uma redução de seu sentido como entre. Diz-se de uma pessoa que não é capaz de reconhecer e respeitar o espaço entre corpos: fulano não tem Ma. Esse Ma, essa capacidade de perceber o invisível, os vazios (inclusive entre os conceitos) é justamente a capacidade de reconhecer os possíveis. Sobretudo os possíveis das relações, das formas de encontro com o outro, com o espaço e com a qualidade desses encontros. O exercício do Ma é manter-se flexível, mutável, adotando uma perspectiva que é sempre relacional. Creio que a experiência no vocacional, com suas estruturas mais ou menos determinadas e bastante precárias não é possível de existir senão na compreensão do que não é e na descoberta de seus possíveis. É investir no entre como potência criativa.

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Menino Alagado

Menino Alagado

              Tento escrever o retorno do menino distante da casa, tento descrever o menino que se perdeu no quintal de casa, eu artista orientador do programa Vocacional no Ceu Três Pontes, eu desorientado por meus caminhos, tento criar nestas linhas o chão por onde percorri. Mas quando leio, descrevo as nuvens do CEU que me fizeram perder o rumo, me fizeram sonhar, sentir medo, lembrar e devanear.


Eu menino alagado que sempre fui, perdido e distante de mim mesmo por anos a fio. Me vi assim entre ruas e becos na busca por ser, por encontrar um bote que me levasse, que me salvasse e me fizesse sonhar.

 Lembro do primeiro dia que passei a existir. Que conheci o teatro. Minha primeira vivência onde ouvi “ator é bicho que quer viver muito, é bicho incansável que acha que uma vida só, é pouca, quer ser rei, ladrão, santo, puta, pássaro, quer ser peixe, ser homem que senti o tempo no corpo, que ouve o vento, quer ser de tudo um pouco, quer ser muito mais.” Logo eu que não queria ser nada. Perdido...Perdido...Procurando uma casa. Um CEU que pudesse voar. Um lar neste mundo grande onde as crianças sentam na calçada, festejam na rua e se encontram nas esquinas do Jardim Romano.

Eita que lembro das tantas caminhadas distantes que fiz, tantas janelas onde eu pintava minha imaginação, onde encontrei meu oficio, onde vivia outra realidade. Onde encontrei espaço para me descobrir pássaro. Depois de tantos anos venho eu voar sobre este CEU. Este erguido sobre as pontes do rio, este mesmo rio que me acompanhou debaixo de sol e chuva. Que quando moleque fugia da mãe para pescar girinos com as mãos, girinos que nasciam na beira do rio. Venho conhecer o CEU. Estrangeiro CEU que assim caiu nas margens do rio. Como barco grande naufragado em tempo de maré cheia, que todos observam de fora, o lendário barco que guarda tesouro precioso, pedra rara, barras d’ouro, segredos ao pé do ouvido, mistério nebuloso, promessas.

Eu que pensei que o CEU era casa do povo, praça popular, casinha da árvore que todo menino sonha construir, onde mora a fantasia, as brincadeiras, a invenção, o primeiro beijo, o encontro do clã, o piquenique, a festa que convidamos os vizinhos para dançar e onde tiramos fotos para guardar no peito e recordar. Eu que pensei que o CEU era de todos, caminho da salvação, paraíso, lugar onde podíamos pedir aos sábados e domingos um pouco de açúcar para adoçar o suco amargo dos dias da semana. Pensei, pensei, pensei...e entre as nuvens me perdi...

Meu Deus por onde andei esse tempo todo?
 Eu estou aqui tentando entender!!!



Ontem ouvi Maria Bethânia dizer: Mas música é perfume, é sensorial. Como diz os pequenos deuses do Jardim Romano que navegam pelo rio esquecido, mas cheio de memória naufragada “Tem um cheiro forte de merda que não dá para explicar.” E nem precisa, tem gente que quer entender demais e não senti nada.

Tá ai... Não vê que os meninos tão na rua, não vê a dança na espreita, a canção que brota do alto da laje, a poesia cravada na parede, a rua que vira encontro, o chão que vira água, a menina moleca que decorou o texto, o caminho da imaginação, o beco colorido da criação, o menino dizer agora eu entendo o rio que invadiu a minha casa, o trajeto, a estirada/caminhada longa que é a própria vida...
Assistindo “A Cidade dos Rios Invisíveis” espetáculo do grupo teatral Estopô Balaio que atua no Jardim Romano, me fez ouvir a canção da rua, do rio que virou lar, que transformou o menino em peixe, o sonho em água escura que invadi as casas, sem pedir licença, que muitas vezes lembra a todos que seu espaço é maior do que deixaram para ele. Que não tem grade, nem urubu fardado com cara brava que o impeça de entrar. Estes meninos que nadam como peixe no rio, que há tempos ouviram dizer que depois das pontes construíram o CEU para os meninos voar. 

Promessa boba, palavra que se perde na ação. Tem casa que tá virando prisão, com guarda no portão, gente certa para entrar, não pode isso, não pode aquilo, tem dono sem escritura, tem uns que pode mais, outros que tem que obedecer, tem regalias, funcionários, desacordos, planos por debaixo dos panos, não tem projeto, é chacina violenta que mata as possibilidades da multidão. Grade, portão, falta relação, AFETO.

Quem chega novo assim que nem eu estou, se senti perdido no próprio quintal. Não sou vítima não. Eu também imaginei errado. Pensei que fazer teatro era coisa simples, para todo mundo. Era que nem brincar de pega-pega, que nem fazer bolha de sabão. Estou aqui refletindo, sentindo ao invés de entender. Estou só tentando mergulhar. É que faz tempo que não nado neste rio sujo, que não caminho sobre este mar, que tento fugir do anzol, da rede de pesca. Faz tempo que também construí minha casa sobre rodas onde muita gente pode entrar. Faz tempo que não me sinto só. De mãos atadas. Que não me sinto com vontade de brigar, não de porrada porque sempre fui menino medroso. Minha briga sempre foi outra e mais lenta como dos pequenos deuses do Jardim Romano, minha luta sempre foi com poesia. Só a poesia para inventar outros modos de existir...

Sinto vontade de voar no ponto mais alto do Jardim Romano e dizer:

Ei menino sapeca, menina sereia. Todos vocês pequenos deuses que guardam os segredos nas asas, no passinho do romano, no nado diário. Na inocência e na coragem de se aventurar. Que ainda resistem na brincadeira, que tem a missão de nos fazer sonhar, voar por terras outras, e fazer a gente esquecer deste chão de asfalto negro que conduz o nosso destino. Vocês que neste instante podem fazer todos nós sentir o vento lá do alto, e transformar o CEU em casa azul onde moram os sonhos. Chega de tantos sonhos perdidos, esquecidos, soltos como uma bexiga que escapa da mão do homem cansado. Do homem que ainda olha para CEU com saudade, mas na esperança de encontrar o que perdeu. Este homem que espera caminhar sem rumo certo, sem saber onde os pés os levarão, sem saber o que pode acontecer, com vontade de ser livre, menino vem ensinar o homem a voar, a ser pássaro, a transformar o CEU em imaginação, em criação, em lugar onde podemos pescar a memória empoeirada que flutua no espaço.

Estes devaneios me fazem ter fé em meio a escuridão. E tenho fé que hei de encontrar tantos pássaros disfarçados por ai... Pássaros procurando lugar para ser. Para voar como pássaros pequenos, para voar pelo Céu, o Céu é tão grande e desconhecido.
   
Vocês sabem o que é o Céu pra mim? O Céu é cada ser. E nosso CEU tá precisando ser outro. Nosso CEU precisa deixar de ser gaiola.

Anderson Maurício – Ensaio Vocacional

São Paulo, 17 de novembro de 2014.

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sexta-feira, 28 de novembro de 2014

O tamanho do invisível




Ensaio Vocacional TEATRO
Artista Orientadora: Janaina Brizolla
Equipamento: CEU Parque São Carlos 
Equipe: LESTE 4


"Algumas pessoas são longe.
Quando for grande
quero ser longe"
Valter Hugo Mae


Entro e respiro,
 olho para dentro até não caber mais
 em seguida percebo-me em relação ao outro
 olho até faltar o ar.

Primeiras horas:
"Chão de madeira 
Entrar em terreno estranho
Conversa em circulo
Conhecer gente nova
Opiniões diferente e visões de mundo oposta
Conhecer o espaço
Correria em velocidade 1,2,3,4 e 5
Equilíbrio
A dança da bexiga
risadas, e conversas soltas
Silêncio
O corpo (deixa ele se expressar)
Silêncio de novo
Sensibilidade, leveza e emoção
Mais conversas e observações
Hora da história
Narração
Roda de 10 amigos brincando, numa praça
Todo mundo feliz, muitas risadas
Adaptando-se, na gravidade
Trabalho em grupo
Apertando botões
Acordar os amigos de forma diferente
Uma roda de amigos envelhecido, morte feliz
Observações
Conversas
Outra história, adaptação do Mágico de OZ
 Mais história... O caçador, vampiros e a Imperatriz
Outros personagens, fui caçadora, mas virei vampira e fui morta por um caçador 
Outras conversas, considerações e observações das encenações.
O pintor e seus personagens se revelando
Final da história
Eu narrando, falando em voz alta 
A transformação de Oscar, metamorfose
Várias vidas em uma só...
Mãe acorda filho e tudo não se passa de um sonho
Outra história, mundo adolescente
Segredos
Vida sexual, abordagem (Não estou pronta)
Uma nova roda no piso de madeira, observações
Errar e começar de novo"



Vivemos no CEU, lugar frágil, lugar de navegação.
 Aos poucos foram chegando, vieram de vários lugares, da casa ao lado, da rua de baixo, de um bairro distante e do azul da cor do mar. 

Logo fui percebendo seus olhares e suas vontades fulminantes, falamos, falamos, falamos, e no mar desse CEU, nos lançamos para o absurdo, para o improviso em busca  de um vestígio de comicidade.

Aqui a vida se compõe, aqui a vida se cria. Jogo, coletivo, em duplas, sozinhos, descobrindo e explorando os impulsos. Observo e experiencio. 

O impulso surgiu, e a mascará do palhaço nos levou para fora. Abrimos as portas e com isso o território  se expande, encontramos algo, um reflexo de criação.

E nessas andanças encontramos nossa imagem refletida nos corredores, no metro, nas praças. E esse mundo de fora se aproximou do mundo de dentro.

E tentamos pertencer a este novo lugar descoberto, o lugar de criação e nos questionamos, como pertencer? Pergunta que nos fez caminhar: 






devagar 
até pegar o ritmo
os saltos
foram pequenos
com giros rápidos
em plano médio
pisamos nos calcanhares
borda e ponta dos pés.



  




E nessa caminhada percebo que o teatro me permite também a não pertencer a nenhum lugar. 
Então apenas nos colocamos no espaço-corpo e percebemos o invisível.
E percebemos o quanto não estamos mais invisíveis.
Muitas palavras-corpo foram acumulando no espelho:

corpo-medo
corpo-entrega
corpo-impulso
corpo-descoberta
corpo-ausência
corpo-esforço

E no reflexo dessas palavras sinto que:" Não posso tirar a mascara, se tirar, não serei mais vista, ficarei invisível"

Só que as vezes olhar para o invisível é necessário. Percebe-lo do seu lado feito sua sombra. E isso pode ser que só descobriremos depois de grande, que o tamanho das coisas há de ser medido pela intimidade que temos das coisas. 
O tamanho do invisível, seu Manoel de Barros conhecia.

E o invisível foi-se desabotoando, dos pés, do peito, das mãos, dos olhos, dos narizes, das bocas.
Através do nariz vermelho o espelho reflete agora a nossa imagem desabotoada.


De fato, antes de se tornar um personagem,
 o palhaço é uma visão de mundo.
 Ele se organiza numa lógica particular que
 olha, pensa e realiza a realidade
 num sentido que lhe é autêntico,
 único e original. 
Não se pode separar o palhaço da pessoa,
 o criador, pois se trata dele mesmo,
 apenas revelado numa espécie 
de segunda versão da própria existência.
 (Achcar, 2007: 106).



Os pequenos narizes vermelhos, 
dando ao nariz uma forma redonda,
 banham os olhos de ingenuidade e aumenta o rosto,
 desarmando-o de qualquer defesa. 
Ele não causa medo, o que faz com que seja amado.
 (In "Le Théâtre du geste", org. de Jacques Lecoq, Ed. Bordas, Paris, 1987, pág. 117. )

Relato de quando o mundo de fora se encontrou com o mundo de dentro
 por Vanessa Sullivan



"Lembro de estar tremendo, parada e encostada na parede enquanto todos caminhavam.
Tive medo de compartilhar os meus temores, o que eles iriam pensar de mim? 
Não sou como os heróis do cinema. Eu tive medo de caminhar, de sair do lugar.
As portas se abriram, caminhei de cabeça baixa para disfarçar o nervoso.
Eu não sei o que estava acontecendo para eu estar assim, tinha um casal de grilos cantando e dançando no meu estomago.
Porque essa gente me olha tanto? 
Que Palhaçada é essa?
E essas roupas? Cade o bom senso?  Cade o bom gosto?
Será que perderam a noção do ridículo?
Mas quem sou eu para julga-los, estou igualzinha a eles.
Acho que não gosto do bom senso.
Pra que tanto rótulo?
Pra que se prender tanto?
Eh! Acho que sou uma palhaça!
Porque a vergonha ficou do outro lado da rua..."

















   




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